
Costumo escutar as músicas enviadas antes de ler a mensagem de quem solicitou a crítica da produção musical. Para não ter qualquer influência nas primeiras impressões.
Quando ouvi "Mesmo Sem Te Ver", logo imaginei uma trilha de filme. Assim que soube que esta era a intenção do co-produtor Rodrigo Blefari, concluí que ele acertou em cheio. Rodrigo é um amigo e ex-aluno, produziu esta trilha juntamente com a autora, Juliana Lima, que também canta nesta gravação.
Músicas para filmes não devem chamar tanto a atenção. Há quem diga que uma boa trilha sonora é aquela que passa despercebida. Não chegaria a tanto, mas temos sempre que lembrar que a atenção do telespectador está dividida entre a imagem (e todos os seus elementos - diálogo, fotografia, trama, ação) e a trilha de fundo. É por isso que concordo totalmente que, para algumas cenas, a melhor trilha é o silêncio!
Nesta produção, o arranjo é compatível com uma trilha sonora, trazendo poucos elementos e timbres que funcionam. Violão e cordas se encaixam na mensagem lírica e musical. A melodia inicial é linda e serve para envolver o ouvinte.
Fui informado que a produção só teve 3 dias para ser feita. Me pergunto se isto inclui a composição e a pré-produção? Porque, se a música estava "pronta" para ser gravada e mixada, 3 dias podem ser mais do que suficientes para finalizar uma produção. É muito comum este ritmo de trabalho para trilhas, jingles e material publicitário em geral. Uma boa dica é deixar suas composições pré-produzidas e afinadas para quando uma oportunidade aparecer.
Alguns detalhes me chamaram à atenção. Existe uma frase que coloca a palavra "momento" com a tônica na última sílaba. Soa como "momentú". Lembra-se de "tenho pedras nos sapatús" do Capital? Isso se chama prosódia e deve ser evitado. Poucos minutos de tentativas podem encontrar um sinônimo mais apropriado, uma métrica mais natural. Quanto a seleção dos timbres, um deles não está compatível com o nível de qualidade da produção. Os outros são bastante convincentes. Sei que o Rodrigo utilizou sinths virtuais, mas talvez devesse procurar por um som menos artificial. Acredito que sejam as cordas ou madeiras mais agudas no meio da música. Hoje em dia, existem excelentes bibliotecas de samples, mas para que funcionem, devem estar sempre bem organizadas e acessíveis rapidamente pelo produtor musical.
Na mixagem, o canal esquerdo está nitidamente mais alto. A análise em ferramentas próprias indicou uma diferença superior a 6dB em algumas passagens longas. Nesse caso, o ouvinte pode se distrair e perder a mensagem do conjunto. A voz está muito destacada (alta) nas sessões mais intensas. Não utilizaria compressão para corrigir, mas sim uma edição manual do volume das frases. Esse é um problema bastante comum. Outro dia terminei uma mixagem com a voz alta. Foi uma ouvinte que não tinha nada a ver com a produção que me deu o toque. Às vezes perdemos a noção dos volumes e equilíbrios quando estamos trabalhando no mesmo projeto por horas e horas. Recomendação: ouvir sempre no dia seguinte, com ouvidos frescos, para fazer os últimos ajustes.
Fiquei um pouco preocupado em saber que o produtor não sabe exatamente em que fase se encontra a pré-produção. Isto deveria estar bastante claro, mesmo porque o cliente precisa entender onde podem chegar e qual é o planejamento de tempo e orçamento. Por exemplo, se fosse uma gravação-guia, não me preocuparia de maneira alguma com os timbres sintetizados ou problemas de volume na voz. Mas se tratando de uma demo, tenha em mente que a produção será ouvida e avaliada por outros como versão final. Nesta pontuação, considero o trabalho como demo. Parabéns, sobretudo pelo prazo apertado, sucesso!
Informações sobre a gravação, enviadas pelo produtor:
"Um mic C1 da Behringer / Uma M-AUDIO FW-1814 (utilizando os proprios prés da placa) / Nuendo (alguns pluguins, Sonitus, Waves etc..) / Reason (3.04) com um teclado Yamaha PSR-400 (somente como interface midi) / E um violão simples gravado em linha e com o mic / As cordas são timbres synth, mais creio q isso é bem perceptível"
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