Se até Phil Collins errou nessa, ninguém está livre da armadilha.
Saiu na Sound on Sound de Janeiro uma matéria bem legal sobre a produção do seu último álbum - "Going Back".
Tudo começou em 2008, no home studio do artista, com estudos e rascunhos do que viria a ser um super-cover de clássicos da Motown. Baita responsa!
Regravar algo que já foi sucesso é sempre um desafio extremo. Muito difícil bater a versão original, sobretudo quando ficou tão conhecida - uma marca da Motown - mesmo não havendo muita tecnologia ou grandes truques de produção na época (aliás, a grande maioria dos covers e releituras deixam a desejar e não acrescentam nada).
Desta vez, as intensões de Phil Collins iam além - recriar o SOM da Motown, com todos os seus "defeitos". Contratar músicos da época, experimentar equipamentos antigos, pesquisar arquivos de fitas. Para quem gosta de áudio, um verdadeiro parque de diversões de gente grande, tenho certeza que ele se divertiu muito.
Para dividir a responsabilidade e ter o respaldo técnico tão necessário - afinal, passar por tudo isso sem compartilhar com ninguém é como brincar sozinho, muito da graça se perde - escalou o engenheiro Yvan Bing, amigo de outros projetos, para gravar, mixar e recriar o som da antiga gravadora.
Phil Collins afinou seus objetivos, colocou alguns prazos e metas, agendou músicos e estúdios e decidiu assinar a produção do disco. Foi aí que cometeu o grande erro...
Como produtor musical, eu tenho sempre que me lembrar do seguinte: o que vale, no fim das contas, é o resultado final. Não importa se usamos este ou aquele microfone, se gastamos um ou cem mil reais, se somos geniais ou não. Nas primeiras audições, a reação do público dirá tudo.
Claro, talvez um determinado projeto tenha um público alvo em mente, um nicho de mercado específico, pouco importando a opinião da massa. Mas seja como for, sempre há um público chave que poderá, rápida e espontaneamente, avaliar a produção.
Neste caso, não estamos falando exatamente de um disco pop. Mas são clássicos do soul e R&B na voz de Phil Collins, portanto a expectativa é grande.
Na minha primeira audição, fiquei bastante frustrado. Procurando por comentários de outros ouvintes, percebi que não estava sozinho. Aliás, encontrei um sentimento de frustração geral, que se resumia como "karaokê mal feito".
A voz de Phil Collins simplesmente não se encaixa no som. Já aconteceu com você? Aposto que sim, comigo várias vezes e com a maioria de nós mortais. Mas não esperava isso num disco como esse. Parece mesmo um Karaokê, o vocal soa estranho, desconexo, por vezes cômico. Em uma faixa em particular, conforme bem colocado numa crítica que li, parece Tico e Teco.
Da matéria na revista, lembrei que eles tinham decidido manter os takes originais dos vocais, do estúdio caseiro de Phil Collins. Na hora, não achei nada estranho, pois trata-se de algo mais comum do que podemos imaginar. Alguns takes mágicos da fase de pré-produção nunca conseguem ser superados. Mas depois de ouvir o disco, percebi que não era o caso. Aí me pergunto: POR QUE ??????????
Depois de tanto trabalho, meses de pesquisa, contratação de músicos famosos, peregrinação entre diferentes estúdios e um excelente trabalho de engenharia - que pode ser constatado pelo som dos instrumentos - por que não gravar os vocais novamente, perder alguns dias a mais, o último kilômetro da maratona?
Só posso concluir que o produtor perdeu a perspectiva. Antigo problema, conhecido de muitos, que nos persegue e toma conta da situação quando não somos cuidadosos.
Certamente ficaram tão obcecados em conseguir o som da época, que se esqueceram de um detalhe, os vocais. De fato, chegaram no tal som planejado, com alta baixa-fidelidade, incluindo ruídos e distorções da época! Os músicos tradicionais mandaram muito bem, captação impecável, reverbs datados, mixagem redonda, uma produção que realmente parece ter saído do pequeno estúdio da Motown, diretamente da década de 60, não fosse o vocal...
Para piorar, tem aquele problema de você ouvir a mesma coisa centenas de vezes - qualquer som começa a soar bem. Talvez nem perceberam que os vocais ainda não estavam a par da produção. A receita para o fracasso: projeto muito longo, objetivos que desviam do todo, falta de visão externa, perda de perspectiva geral.
Se ao menos uma terceira pessoa estivesse envolvida... Um ouvinte, um fã que seja! Um executivo de gravadora, aqueles representantes de A&R que incomodam com seus comentários leigos e inoportunos, talvez um desses malas tivesse dito "cara, isso soa como karaokê". Melhor ainda, um co-produtor, responsável pela visão global.
No entanto, a Phil Collins Limited, de um homem só, mesmo com a ajuda de um engenheiro competente, não conseguiu convencer. Uma pena.
Fica aqui um reforço da velha lição. Compositor é compositor. Artista é artista. Produtor é produtor.
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