Venho planejando este tipo de teste há algum tempo. Se você, assim como eu, é fanático por microfones e está sempre procurando testar e estudar modelos, então vai aproveitar este artigo. Foram horas de preparação, encontros e desencontros, espero que goste!
Eu e meu amigo Flávio Kranic (locutor profissional e proprietário do Alkra Estúdio) juntamos alguns dos nossos mics prediletos para fazermos estas gravações comparativas. Foram selecionados para este teste, em ordem alfabética:
AS ESTRELAS (áudio abaixo)
- AKG C4000B - condensador multi-padrão, US$ 650
- AKG Perception 400 - condensador multi-padrão, US$ 300
- Audio-Technica AT4040 - condensador cardióide, US$ 300
- Behringer ECM8000 - mic de teste, condensador cáps. pequena omni, US$ 50
- Electro Voice RE20 - dinâmico cardióide p/ broadcast, US$430
- Rode M3 - eletreto cardióide, cáps. pequena, US$ 200
- Rode NT1-A - condensador cardióide, US$ 230
Neste repertório, conseguimos reunir "personalidades" variadas, na tentativa de identificar as diferenças de timbres entre marcas e modelos. Eventualmente, podemos tentar associar assinaturas sônicas às características do microfone, como tamanho de cápsula e padrão direcional.
Os preços (data de hoje em grandes lojas da Internet) variam de US$50 a US$650, numa média de US300, que representa uma referência de valor para quem pretende investir num bom microfone para estúdio, confiável e versátil. As opções nesta faixa de preço são inúmeras, mas certamente aqui estão uns dos mais conhecidos e respeitados: AKG, Audio-Technica e Rode.
O Electro Voice RE-20 (foto ao lado) é um caso à parte, tendo longa reputação, entre rádios e locutores, de captar vozes com excelência, sem apresentar efeito de proximidade (aumento dos graves em fontes próximas). Além disso, o RE20 possui uma construção robusta, imune a pops e interferências, com todas as vantagens que um só um dinâmico pode oferecer em situações extremas de vibração e humidade. Um clássico!
Em alguns casos, modificamos o padrão polar dos mics multi-padrão para ilustrar as diferenças de ganho e timbre.
O TESTE
Utilizamos sempre a mesma cadeia de áudio:
- Pré-amplificador integrado (bastante silencioso) da interface Focusrite Saffire Pro 40, com ganho fixo em aproximadamente 75%.
- Mesmas alturas e distâncias da fonte sonora, reguladas no pedestal a cada troca de mic.
- Sala acusticamente tratada para mixagem, sem isolamento (presença de ruído ambiente, útil para avaliação de ganhos).
- Filtro anti-puff a 7 cm do corpo do mic e a 7 cm da boca. Naturalmente, Flávio sempre procurou gravar com a mesma entonação e intensidade.
Foi lido um pequeno trecho da contra-capa do "Manual Prático de Acústica", de Sólon do Valle.
O áudio foi gravado sem qualquer processamento (digital ou analógico) diretamente nas trilhas da sessão, em formato 44.1kHz/24 bits. Os trechos para audição, abaixo, são conversões MP3 em 192kbps, ditherizadas para 16 bits.
AS GRAVAÇÕES
Antes de fazermos análises e considerações, aqui estão os trechos gravados nos seus volumes originais da captação (valores RMS ref. 0dBFS), seguidos de cópias normalizadas.
Para facilitar as comparações de timbres, o áudio inferior em cada modelo foi normalizado para o valor RMS -16.3dBFS, através da normalização de nível médio, ou "loudness", em oposição à tradicional normalização de picos. Dessa maneira, tendem a representar o mesmo volume para os ouvidos:
- AKG C4000B (-18.0dB)
NORMALIZADO (-16.3dB)
- AKG Perception 400 cardióide (-17.2dB)
NORMALIZADO (-16.3dB)
- AKG Perception 400 omni-direcional (-23.7dB)
NORMALIZADO (-16.3dB)
- AKG Perception 400 bi-direcional (-21.8dB)
NORMALIZADO (-16.3dB)
- Audio-Technica AT4040 (-18.6dB)
NORMALIZADO (-16.3dB)
- Behringer ECM8000 (-26.7dB)
NORMALIZADO (-16.3dB)
- Electro Voice RE20 (-42.5dB)
NORMALIZADO (-16.3dB)
- Electro Voice RE20, excepcionalmente com ganho elevado (-20.3dB)
NORMALIZADO (-16.3dB)
- Rode M3 (-28.6dB)
NORMALIZADO (-16.3dB)
- Rode NT1-A (-16.3dB)
NORMALIZADO (-16.3dB)
Observações:
- A margem dinâmica (crest factor) desta gravação de locução é de aproximadamente 16dB, que equivale à diferença entre a intensidade média e os picos de uma fala normal. Para evitar problemas de saturação e manter uma margem de segurança, procure sempre gravar vocais com aproximadamente 20dB de folga, usando um medidor digital como o K-20 (Bob Katz) ou um VU digital regulado para 0VU=-20dBFS.
- A diferença das intensidades captadas é grande e está dentro das expectativas. Os microfones capacitivos cardióides possuem maior sensibilidade (máxima no Rode NT1-A), enquanto o RE-20, dinâmico, gera um sinal bem mais fraco, exigindo muito mais ganho no pré-amplificador (preferencialmente) ou do software. Pelo que me lembro, o padrão bi-direcional deveria ser o mais sensível, mas acredito que isso dependa da construção do mic.
- Realizamos uma segunda gravação com o RE-20, com ganho elevado no pré-amplificador, já que a primeira é praticamente inaudível em condições normais de audição. Uma pequena variação no ganho do pré (de 75% para 85%) representou mais de 20dB de aumento, reforçando a característica não-linear do controle de ganho na maioria dos prés.
AS ANÁLISES
Se você monitorou em um bom sistema, com baixo ruído ambiente na sala (ou pelos fones), certamente as diferenças de timbre foram percebidas claramente. Em alguns casos, são muito notáveis. Aqui estão estão algumas das percepções:
1) O padrão omni-direcional naturalmente capta um som mais reverberante, com muito mais ruído ambiente. Por outro lado, costuma ter a resposta mais plana e fiel nos microfones multi-padrão. Se isso será benéfico ou não, depende totalmente no instrumento gravado, da sala e dos posicionamentos, mas vale lembrar que o padrão omini costuma dar um timbre mais natural. No outro extremo, o padrão bi-direcional (figura 8) soa mais seco e direcional.
2) Apesar de teoricamente possuir uma resposta plana, o microfone de teste ECM8000 soa demasiadamente "barato", pelo menos neste caso, principalmente quando comparado ao Perception 400 no mesmo padrão omni, que oferece um ruído de fundo bem menos intrusivo. O resultado provavelmente é compatível com sua faixa de preço.
3) O RE20 possui algo bem diferente dos demais cardióides, talvez por sua menor sensibilidade a transientes e detalhes, o que funciona muito bem com esta locução. A voz soa aveludada e equilibrada, praticamente dispensando qualquer tipo de equalização. O ruído adicional da gravação de ganho baixo, que foi amplificado no software (somatória de ruído acústico ambiente + ruído de quantização digital) é naturalmente superior ao ruído do pré-amplificador com ganho alto, reforçando a hipótese de que é mais aconselhável amplificar no domínio analógico do que dentro do computador, quando o pré amplificador é silencioso. Por outro lado, se o software trabalha com alta resolução interna (32 bits ponto flutuante neste caso) e o ruído ambiente é baixo, não há grandes problemas em se gravar com valores RMS em torno de -40dBFS. Gravações digitais em 24 bits não precisam necessariamente atingir valores de pico próximos a 0, -10 ou até -20dBFS, o que era essencial nos tempos de 16 bits. Melhor manter uma folga segura e amplificar/comprimir depois do que correr o risco de clipar a gravação.
4) Num rápido teste cego, o Perception 400 no padrão cardióide me parece o melhor timbre, pelo menos entre os condensadores. Não se trata do mais caro e ainda é bem versátil com seus padrões variáveis. Infelizmente, não creio que ainda seja fabricado pela AKG, que já atualizou a linha Perception.
5) O NT1-A é sabidamente um dos microfones mais silenciosos do mundo, com ruído próprio de 5dBA. Isto significa que os detalhes dos sons ambientes (como articulações do instrumento e reverberação da sala) tendem a ficar muito mais nítidos, sobretudo quando o ganho/volume é elevado. Naturalmente, o ruído ambiente, inclusive dos melhores estúdios profissionais, costuma estar bem acima de 5dBA, na casa dos 20dBA. Mesmo assim, há muita coisa perceptível pelo ouvido abaixo deste valor médio, nesta faixa de 15dB que pouquíssimos microfones conseguem captar. Neste teste, o NT1-A soa de fato como um dos mais silenciosos (menor ruído). É também uma das captações mais graves, juntamente com o Perception 400 em padrão bi-direcional e o AT4040.
6) O resto é com você, amigo leitor!
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Comentários
Nesse teste, os Rode foram muito bem e deu pra perceber(bom, minha opnião apenas, XD) que se destacam do resto, tem um som mais aberto e defnido.
Se possível, poderiam fazer o teste com microfones mais "budget", até 200 dólares, coisas comoo AT2020, o V67G (MXL), o 4000 (MXL), entre outros?
Eu conheci esse site atravéz de um colega locutor, o Roni Padilha, que gentilmente me enviou o link via orkut na comunidade Confraria dos Locutores. Estou pesquisando microfones para ter uma outra opção além do meu NOVA, by M-ÁUDIO (aliás seria interessante vê-lo ai nesse teste mas sei que trata-se de uma mosca branca e poucos profissionais utilizam esse mic.)
Meu preferido é também o Audio-Technica AT4040 (o famoso custo-benefício foi mais uma vez comprovado em seu teste). A surpresa foi o 400 que realmente no cardióide me surpreendeu...esperava menos dele, confesso. O NT1-A de fato parece ser mesmo o que mais se destacou. Claro que cada textura vocal imprime um resultado diferente mas o teste é super válido e me ajudou muito.
O 4040 parece uma ótima opção mesmo! Bom e "barato".
Obrigado
Ricky
Parabéns meu amigo, você apresentou o teste de uma forma bastante didática, expondo informações importantes, principalmente para quem está passando por essa fase difícil, que é a definição de qual microfone comprar. Acho que esse artigo será de grande valia para muita gente.
Aproveito para esclarecer que a minha opção pelo AT4040 se deu principalmente pela dificuldade em encontrar o NT1-A, que, como você citou, eu já havia testado e, confirmo, me agradou bastante. Como recentemente tive a oportunidade de testar o AT, que também se mostrou muito bom, pesou na minha decisão a disponibilidade e atenção do distribuidor, a AMI, com quem consegui contato sem a menor dificuldade. Mas o NT continua na minha mira, provavelmente ele será o próximo da minha coleção. E acrescento meu forte palpite no “Podcaster”, também da Rode, microfone dinâmico, de cápsula grande, USB, um coringa na mão de um locutor, muito interessante...
Quanto às sugestões do Sólon, nosso guru e do Túlio, são ótimas e me coloco a disposição para o que for preciso.
Forte abraço,
Flávio Kranic
Interessante sua opinião, porque o próprio Flávio escolheu o AT4040 e gosta muito dele, inclusive depois de ter testado o meu NT1-A, do qual sou suspeito para falar, porque com certeza é o mic que mais uso no dia-a-dia, bem confiável e sem surpresas desagradáveis!
Um teste com mics de baixo custo seria perfeito, acredito que os leitores iriam adorar. Tenho algumas opções no meu estúdio, mas não o suficiente para um teste amplo...
Quem sabe alguns fabricantes se interessam, eu faria os testes com prazer!
Sólon, já teve alguma experiência com os KARMA K-micro? http://www.karmamics.com/kmp.html
Eles têm tamanho e preço bem pequenos... Ideal para situações que requerem vários mics condenser sem atrapalhar os músicos... Estou muito curioso para saber o desempenho. Estranho ser um cardióide, porque aparentemente não possui ventilação lateral. Abs!
Ficou muito interessante o comparativo, e útil para quem precisa escolher um microfone de preço médio.
Na minha opinião, os que se adaptaram melhor à voz do Flávio Kranic foram o NT-1 e o Audio-Technica.
Também vale citar o velho RE20, um sofisticado dinâmico com cápsulas separadas para baixas e altas frequências, com crossover interno e tudo.
Os omnis não encorpam mesmo a voz. O pior reultado foi com o ECM8000 - não por ser baratinho, mas por ser flat demais (é um mic de teste!!!) e por ter o diafragma pequeno. Não é culpa dele.
Posso dar uma sugestão? Que tal um comparativo entre mics de baixo custo, como Superlux, JTS, MXL, etc.? Acho que teríamos boas surpresas...
Abraços,
Sólon
Sou suspeito pra falar de microfones criados para broadcast... Sou fã do RE20, e mais ainda do SM7, este ultimo aliás, usado por Bruce S. para gravar 'The Way You Make Me Feel' do Michael J. Usado também aqui nos estudios da Metropolitana.
Gosto muito do som dos dinâmicos de pedigree, daria o segundo lugar ao RE20, e medalha de ouro ao NT-1. Ele deu 'ar' pros agudos, que não são lá grande coisa num RE sem processamento.
E como soa bonito o NT-1!
Grande abraço!
PS: faltou meu valvulado aí, heim?!
Sempre estou pesquisando os mics que o povo usa por aí, mas não sabia porque. Gostei muito desse AKG Perception 400 junto com seu preço.
Agora queria ver um teste com os modelos hi-end entre os Neumanns da vida e também os mics de bateria, cubos...
Cara, achei um modelo na net com um preço ótimo e parece estar sendo muito aclamado lá fora, o MXL V69, um mic condensador de tubo, que tem um ótimo visual também (ele não me parece estranho). Queria muito ouvir um teste desse! Achei ele no http://www.zzounds.com/item--MSEMXLV69ME
Abraços!
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