Microfonação Minimalista de Bateria - Parte 1

Sou um defensor do simples!

Procuro sempre usar o mínimo de microfones possível. É a velha história da foto perfeita: se você tem paisagem, modelo, iluminação, cores, contraste, definição, foco - então é só questão de usar uma câmera decente, encontrar ângulo e distância e... click.

mic_simples_batera

Mas se você precisa tirar várias fotos, editar, recortar, ilustrar, colorir, colar e dá-lhe Photoshop, dificilmente chegará no mesmo resultado. Pode criar algo lindo, sem dúvida, mas a naturalidade se foi, assim como horas e horas de trabalho.

Microfonação de bateria está entre os assuntos mais discutidos, mal compreendidos e polêmicos do universo do áudio.

Minha teoria é que 90% das gravações em estúdio usam mais do que 4 microfones na bateria (muitas delas 8, 10, 12), sendo que mais da metade só precisaria de 1, 2, 3 ou 4.

Não estamos falando só de economia de tempo de setup, menos microfones e prés, menos cabos e canais na mesa, menos espaço de gravação e tempo de edição, simplidicade de mixagem e menores chances de erro. Estamos falando de um som mais apropriado, correto, que cai como uma luva.

Mito: Sons de bateria pulsantes, grandes, com ataque e corpo, necessitam de vários microfones durante a captação.

Argumentação:

a) escute o novo disco de Mark Ronson, chamado Record Collection, e repare na bateria das faixas. A maior parte delas foi gravada acusticamente, com apenas um microfone. Acredite, leitor, somente um microfone, cuidadosamente posicionado na sala. Não consigo imaginar alguém dizendo "nossa, que bateria magra, fraquinha, parece que foi captada com apenas um microfone". O som é moderno, pulsante, natural, como várias gravações feitas com 12 microfones.

b) escute este rápido exemplo (A) microfonado em nosso último workshop de Técnicas de Gravação.

Trata-se de um clip totalmente cru, sem qualquer EQ, compressão ou processamento. Usamos apenas um microfone.


Falta punch, dinâmica, naturalidade? Sente falta de caixa, bumbo ou acredita que a mixagem (acústica) prioriza algumas peças em detrimento de outras? Ok, talvez não soe "finalizado" ainda.

Podemos reforçar com EQ, reverb e compressão (nada contra retirar algumas celulites e manchinhas da pele, ou destacar outros elementos, isso quase sempre ajuda). O processamento abaixo está mais para exagerado do que para sutil.


Para mim soa muito bem, como uma bateria, natural! Acho até que prefiro sem nenhum processamento. E tenho certeza que funcionaria para vários estilos musicais e tipos de produções. Foi extremamente fácil de preparar, captar e processar. Muito mais fácil do que tentar usar vários mics, que poderiam nem trazer este resultado.

Isto nos leva a outro mito:

Quem disse que baterias precisam ser estéreo?

Tirando de lado algumas poucas situações que pedem uma sequência de tons percorrendo o panorama de um lado para outro (ta-ta-te-te-tu-tu-tu-tu-to) logo antes do solo fenomenal de guitarra, não há muita necessidade de estéreo na bateria. Deve ser encarada como mais um instrumento na banda. Quantos deles você microfona em estéreo? Por que? Use o mesmo raciocínio para a bateria.

Veja que mesmo usando vários mics, a mixagem não necessariamente será estéreo, muito menos a técnica de captação. De novo, no mundo real, quando escutamos um baterista ao vivo, estamos relativamente distantes para não perceber nenhuma propriedade de panorama, a caixa não soa ligeiramente à direita e nem um pouco para cá do ximbau!

Dito isso, gosto de usar técnicas estéreo para captar a bateria, mas principalmente pela riqueza do timbre, espacialidade. Não pela capacidade de brincar no panorama ou esticar o instrumento de lado a lado no panorama. É quase um som mono, porém mais rico, que pode ser alargado ou afinado, afastado ou aproximado, com muito mais controle durante a mixagem. Além disso, tende a soar muito bem por si só, algo que eu chamo de "captação mono com mic estéreo".

Aqui está um exemplo (B), do mesmo trecho acima, gravado extamente no mesmo momento, na mesma posição do microfone mono, com um par estéreo XY. Primeiro o original:

E de novo, bastante processado, como exemplo de onde podemos chegar:


Não sei quem começou estes mitos. Mas o pior é constatar que a maioria dos técnicos e produtores que conheci não questionam esta "verdade absoluta". Quem disse que é verdade? Por que você acredita? O que você fez para tirar suas próprias conclusões?

Boa parte nunca fez nada, simplesmente saiu gravando bateria do jeito que aprendeu, como todo faz e diz que é melhor. O que adoram discutir é sobre modelos de microfones e pré-amplificadores - as coisas que menos importam no resultado final.

O uso de vários microfones na captação de bateria provavelmente surgiu da necessidade de se controlar vazamentos. Isso, por sua vez, veio das performances ao vivo. Bateria no palco realmente precisa de microfonação próxima, peça por peça, para não captar os outros instrumentos da banda e criar um mar de sons embolados.

Experimentando técnicas novas, os engenheiros perceberam que a gravação multi-pista também permitia melhor controle sobre a edição. Ou seja, poder ajustar o volume de alguma peça, acertar o timbre, corrigir erros de performance e até realizar gravações corretivas por cima das outras. Legal, flexibilidade! Mas isso não significa necessariamente um som melhor.

E o que no início era flexibilidade, se tornou complexidade, muito mais trabalho e frustrações, a troco de nada.

Mas aí perceberam que podiam criar um som sobre-natural. Maior que o real. Uma caixa na cara, um bumbo gigante que nunca antes havia sido escutado. Interessante, novas sonoridades, mas definitivamente artificais, aquilo não existe no mundo real.

E se não existe no mundo real, estamos falando de síntese, experimentos alternativos, liberdade criativa - tudo aquilo que é muito legal na música e no áudio mas não tem muita relação com captação de instrumentos acústicos e reais.

Voltando aos mitos - baterias reais já são pulsantes e soam grandes, use o instrumento certo, o músico correto, numa boa sala, e pronto! Se alguns estilos musicais pedem sons exagerados e artificiais, ok, sem problemas. Mas tenho certeza que a maioria das produções pede um som de bateria apenas natural e poucos microfones dariam conta do recado.


Microfonar significa captar o som que existe ali, naquele ambiente, naquele momento. Microfonar não é criar, editar, sintetizar - se este será o caminho, então talvez você nem precise microfonar! Existem milhares de bibliotecas de sons de bateria, muitas delas excelentes, no ritmo e andamento que você quiser, prontas para serem usadas e funcionam muito bem em váris produções.

Se o músico é bom e a bateria está soando muito bem na sala, 90% está pronto!

Vamos ser bem sinceros: se a bateria não é muito boa e nem está afinada, se o músico deixa a desejar e o som da bateria naquela sala pequena está bem comprometido, é melhor desistir.

Quer dizer que nunca vou conseguir tirar um som campeão de bateria no meu home studio? Provavelmente não. A não ser que esteja disposto a editar durante 50 horas, fazer diversas regravações e recorrer aos samplers e drum replacers.

Um melhor caminho é conseguir uma sala maior, investir em tratamento acústico, alugar estúdios e instrumentos, contratar músicos. Assim você chega lá.

Outro caminho é tentar descobrir qual é o problema com seus equipamentos, descobrir qual é o tal plugin de masterização que promete deixar sua bateria gigante! O que preciso comprar? Alguém me disse que existe um microfone que vai resolver os meus problemas. Uma interface de áudio que me permitirá gravar um som de bateria incrível! Mentira...


Nos próximos artigos da série, vamos comparar estas e outras gravações com técnicas multi-pista, escutando novos exemplos. Falar um pouco de equalização e compressão, posicionamento, microfones de sala e deafios durante a mixagem. Até lá!

 

 

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