Perder um ente querido não é nada fácil. Muito triste. Acho que nunca estamos preparados para lidar com a morte. As lições, as reflexões e a consciência dos nossos sentimentos chegam com o tempo, enquanto seguimos o ciclo natural da vida.
Neste dia triste, preciso escrever.
Que seja, ao menos, para eu reler no futuro e nunca me esquecer do que está passando pela minha cabeça. Que eu consiga expressar meus sentimentos aos familiares, aos amigos e a qualquer pessoa que possa se beneficiar destas reflexões. Que chegue ao meu pai como uma oração de alívio, tanto para mim, quanto para ele.
Somos seres humanos e não podemos nos esquecer disso. É por isso que todos nós, sem excessão, sentimos medo e alegria, raiva e compaixão, cansaço e inveja, amor e aflição. Sentimentos bons, sentimentos ruins, mas sempre humanos, que podem nos desviar dos julgamentos sinceros.
A vida alterna entre momentos prazerosos, outros nem tanto. A vivência e a maturidade, graduais e únicas em cada um de nós, nos ajudam, cada vez mais, a relevar as memórias tristes e a valorizar os pontos positivos. Este, para mim, é o sentido do perdão.
Em todas as religões, culturas e épocas, nos diversos grupos de auto-ajuda, irmandades, comunidades e organizações, está presente o conceito do perdão, que nada mais é do que aceitar que temos controle sobre quase nada.
Compreender que nós erramos, como os demais. Que nossos pais e amigos também não são imunes aos sentimentos ruins que desviam nossas condutas. Que podemos e devemos nos perdoar, perdoar os outros, porque ao menos, temos o livre arbítrio de decidir algumas poucas ações. Façamos bom uso desta capacidade, aceitando que a maioria dos fatos não depende de nós.
Aprendendo nos momentos difíceis.
Nestes últimos meses, pude me reaproximar de meu pai, acompanhar seu dia-a-dia e entender um pouco mais as suas dificuldades. O que eu não imaginava é que acabaria compreendendo melhor a mim mesmo, meus familiares e tramas inerentes da vida.
Pude me lembrar de como meu pai foi maravilhoso com os filhos, com a família, com os amigos. E que, sendo humano, nem sempre correspondeu ao que esperávamos. É claro, isso é tão óbvio para mim neste momento, mas não conseguia enxergar.
Em determinadas épocas, ele tinha seus problemas particulares para resolver, medos e mágoas, empolgações e esperanças, que nem sempre eram as nossas, naturalmente. Ele não poderia estar sempre ao meu lado e, muito menos, estar alinhado com os meus momentos, com as minhas expectativas. Em outras ocasiões, era eu quem estava mergulhado no meu universo, e me afastei dele.
Este processo inevitável tende a nos deixar mágoas. Podemos pensar que uma pessoa deixou de gostar de nós. Podemos nos sentir responsáveis pela felicidade alheia e nos culpar. A névoa escura vai se tornando densa e a relação entre pai e filho, ou entre duas pessoas quaisquer, torna-se frágil.
De repente, esquecemos do todo, de tudo o que esta relação significa e de tudo o que já foi construído no passado. Apagamos da memória os inúmeros pontos positivos, porque nos prendemos aos momentos menos nobres.
Enquanto que, na verdade, todos nós só estávamos sendo humanos. Mas eu não sabia perdoar. Talvez meu pai também não soubesse ou não conseguisse demonstrar. Provavelmente, perdemos oportunidades de criar outros momentos felizes e por isso foi muito bom estar próximo dele nos últimos meses.
Mas é fundamental perceber que os momentos felizes já haviam sido criados e que não podem ser esquecidos, nunca! Durante sua vida, ele fez o melhor que pôde, como nós todos fazemos. Não há nada errado em ser humano. E isso foi mais do que suficiente para ele ter nosso respeito, amor e admiração.
O meu maior conforto é acreditar que ele, nos seus últimos momentos, também compreendeu isso. Percebeu que seu filho também erra, não sabia perdoar e nem se expressar tão bem, porém nunca deixou de amá-lo. Soube que eu podia me recordar da nossa convivência e sentir-me grato pelo que ele foi e fez por nós.
Uma lição para a vida.
Nos últimos dez dias, após diversas paradas cardíacas, ele esteve internado na UTI, sobrevivendo com o auxílio de máquinas e drogas.
Surgiu em mim o sentimento, um tanto egoísta, de desespero por não poder mais abraçá-lo, de não poder dizer o que eu sempre quis dizer, de não poder ter uma última conversa.
Diariamente, nos horários de visita, eu e meus familiares podíamos refletir, desabafar. Talvez ele estivesse escutando, talvez não, mas ao menos poderíamos desabafar. Aos poucos, dia após dia, fui aceitando, compreendendo.
Sentia que minhas irmãs também estavam neste processo e na quarta-feira à noite, elas leram lindas palavras para ele, o tranquilizaram e demonstraram todo seu amor. Eu finalmente consegui dizer: "Pai, você não fez nada de errado na sua vida. Desculpe eu não ter estado ao seu lado o tempo todo. Descanse em paz". Algumas horas depois ele faleceu.
Já havíamos compreendido que nada mais podia ser feito. Que assim é a vida. Por um lado, pudemos resgatar os bons sentimentos, trabalhar nossas emoções e falar o que queríamos. Mas eu ainda tinha uma tristeza profunda por pensar que talvez ele também quisesse se comunicar, igualmente desabafar conosco, mas estava incapacitado de fazê-lo. A última coisa que esperamos é que o ente querido morra com mágoas e palavras que nunca foram ditas.
E aí aconteceu a coisa mais bonita que já vivi.
Nestes dias de UTI, eu sempre levava meu iPOD com uma caixinha de som, para tocar a ele uma música que marcou nossa infância, da qual ele gostava muito: "I can see clearly now", nas versão original de Johnny Nash. Tocávamos, sem saber se ele podia escutar.
Quando recebi o triste telefonema do hospital na madrugada de quinta-feira, peguei minha mãe e minha irmã, seguimos para a UTI.
No momento em que entramos no hospital, saguão vazio, escutamos a nossa música, exatamente no refrão que dizia: "Vai ser um dia lindo, o sol vai brilhar.". A TV do hospital passava uma espécie de documentário, cuja trilha era exatamente a nossa música. Um surfista na praia falava com a câmera, como se falasse conosco. Se eu estivesse só, certamente acharia que estava delirando.
Nós três nos olhamos e tivemos o maior conforto que pode existir, em um momento onde o que você mais precisa é de conforto.
Quais são as chances de isso acontecer? Por que acreditar em Deus? Há provas suficientes? Não estaria eu vulnerável a uma interpretação precipitada, neste momento difícil?
No entanto, o que eu de fato me pergunto é: "Por que acreditar que isto foi uma coincidência?". As estatísticas são incalculáveis: música, versão, trecho, hora, local, canal, situação, contexto. Se Deus existe, foi tão direto quanto possível.
Para nós, ali estava meu pai, sempre com seu bom humor, nos pedindo para ficarmos tranquilos. Explicando que tudo ficará bem, que escutou todas as nossas palavras de conforto e queria retribuir o sentimento. Estava aliviado e não deveríamos nos preocupar.
Não consigo imaginar qualquer outra forma mais bonita, eficaz e divina para recebermos esta mensagem. Religões e crenças são particulares de cada um e não posso dizer que sou uma pessoa religiosa. Gostaria que cada um tivesse sua própria interpretação, afinal, é apenas uma história, a conclusão é do leitor.
Ainda assim, é uma linda história real, da qual sou imensamente grato por ter participado.
Por todos os ensinamentos, pelo amor, pelas lindas músicas que escutamos juntos, por ter facilitado nossa despedida, obrigado, Pai!














