Vende-se ovos de galinha brancos e frescos direto da granja
Vende-se ovos brancos e frescos direto da granja
Vende-se ovos frescos direto da granja
Vende-se ovos direto da granja
Vende-se ovos
Ovos
Você tem certeza que a música é boa.
Mais do que boa, uma verdadeira obra-prima, desde a concepção até as últimas etapas da produção. É diferente de tudo, original, super bem interpretada, gravada e mixada (afinal foram meses de produção). Todos da galera adoram.
Mas por algum motivo, não fez muito sucesso...
Soa familiar? Já aconteceu com todos nós que produzimos música, de uma forma ou outra.
Conforme o tempo passa e conseguimos nos distanciar da música, a ponto de afastar sentimentos paternais e emotivos, começamos a cair na real.
É de fato uma obra-prima de composição musical? Que detalhes líricos e musicais são tão originais e geniais assim? Sinceramente? Aliás, é arriscado criar algo muito original e diferente do que o público está acostumado a consumir. Não seria este o problema?
Interpretação, gravação e mixagem estão de fato tinindo? Como produtor (compositor, músico ou intérprete) você se sentiria confortável e assinaria embaixo se a música tocasse em uma grande rádio? Ou será que agora, depois de alguns meses, a música já não soa tão bem assim?
Às vezes gastamos uma semana inteira para editar a bateria e acertar o timbre do bumbo. Logo, concluímos que a bateria está soando perfeita. Para o ouvinte, porém, trata-se apenas de uma bateria: se estiver mal gravada e mixada, não importa quanto tempo dedicamos à produção.
O pessoal da turma gosta da música porque são amigos da banda ou porque realmente gostam dela? Será que não aprenderam a gostar depois de ouvir quarenta e nove vezes? Lembre-se que um ouvinte normal não terá esta oportunidade.
Os amigos teriam encontrado, baixado e gostado desta música se não fossem da turma? Será que não são fãs porque fazem a função de promotores ou são familiares dos membros da banda? Que outros grupos de pessoas desconhecidas gostam da música e da banda? Quantos são?
Está bem, não quero ser pessimista.
Talvez a música seja realmente muito boa e mereça todo o sucesso.
O problema pode estar na divulgação. Planejamento de carreira, táticas de marketing, identidade visual e musical, investimentos de um selo, relacionamento com fãs, tempo de estrada, eventos ao vivo, jabá, contatos no meio, assessoria de imprensa, momento errado, estratégia de novas mídias, etc etc etc.
Há tantos fatores envolvidos no sucesso de uma música que é preciso analisar todos eles com calma para identificar o culpado. Para tanto, nada melhor do que uma consultoria externa, formal ou informal, mas sempre isenta e sincera.
Na prática, porém, muito antes de chegar nesta fase de pós-produção, a música já apresenta sérios problemas que a impedirão de seguir adiante.
Tendo feito inúmeras análises de produções, profissionalmente no estúdio, no site, dentro da Academia do Produtor Musical ou mesmo como exercício, escutando faixas no carro. Me parece que o maior problema das produções está na...
ESTRUTURA ou FORMA da música.
Com raríssimas excessões, toda música se apresenta ao ouvinte como uma história, com começo, meio e fim. Através de uma sequência lógica e planejada, nosso cérebro consegue absorver e apreciar mais facilmente as informações, seja de um livro, filme ou música.
A história, enquanto se desenrola, precisa manter o interesse do ouvinte. Se é muito longa e uniforme, torna-se cansativa. Se é muito curta e objetiva, perde a graça e o poder de memorização ( do contrário, toda música já começaria no refrão ou chorus, terminando em 20 segundos).
Para conseguir manter o ouvinte atento, ao mesmo tempo em que transmite sua mensagem com eficácia, a música se utiliza de diversos recursos - muitos deles também utilizados em outras áreas da comunicação, como arquitetura e tele-jornalismo. Conceitos simples, como repetição, contraste, dinâmica, antecipação e recompensa, ajudam bastante e devem ser explorados tanto na fase de composição quanto na produção.
Na qualidade de produtores de conteúdo - musical ou não - nunca podemos nos esquecer de um conceito fundamental: clareza.
Cada tipo de público tolera um determinado nível de complexidade, mas ao final, é fundamental que a história tenha sido compreendida! Esta é a prioridade, sobre qualquer outra característica da produção.
Pode ser a melhor piada do mundo, no mais moderno e confortável teatro da cidade, em alto e bom som, figurino e cenário impecáveis. Mas se não entendermos a piada...
Experimente analisar as músicas pop que tocam no rádio. Certamente você encontrará um esqueleto de forma recorrente, utilizado na maioria delas, algo como:
Intro - Verso - Verso - Refrão - Verso - Refrão - Ponte - Refrão
(chorus - ou côro - seria um termo mais correto neste caso, embora muitos conheçam a sessão forte da música como refrão)
Esta forma já se provou eficaz há muito tempo, funciona em diversos estilos musicais, acomoda durações de cerca de 3 minutos e costuma manter o interesse do ouvinte, mesmo em músicas fracas. Sendo um recurso de produção que otimiza o poder de comunicação da música, tornou-se uma referência de estrutura segura para o compositor e para o produtor que não pretendem ousar além do necessário - o que poderia transformar a música em algo difícil de ser compreendido e memorizado.
Não estou sugerindo que toda música pop baseie-se nesta estrutura, mas usando-a como base, dificilmente a música será prejudicada. Milhões de ouvintes no mundo inteiro, inconscientemente, já se acostumaram com este tipo de forma musical e esperam encontrar algo parecido toda vez que escutam uma música.
Naturalmente, não estamos falando de estilos alternativos, experimentais ou segmentados. Mas quando falamos em sucesso de grande público - pop rock, rádio e TV - podemos e devemos considerar os padrões de forma que são mais populares.
Curiosamente, bandas iniciantes que pretendem alcançar o grande público costumam errar aí.
Não se espera que artistas que estão começando a carreira possam criar composições geniais. Não se espera que sejam músicos virtuoses, nem que tenham orçamento para aparecer na mídia. Mas é um deseperdício de oportunidade pecar na produção, sobretudo na estrutura das músicas!
Há músicas que possuem três refrões diferentes, duas introduções, quatro respiros. São muito longas ou exageradas em seu arranjo. A simplicidade e a clareza são importantes também na seleção dos instrumentos, bem como para decidir quando cada um deve tocar!
Músicas asssim poderiam ser transformadas em duas ou três faixas distintas. Metade dos instrumentos e sessões poderia ser descartada sem medo. Para o bem da música, não para o bem do produtor, nem do músico, nem do compositor.
Se você estiver produzindo algo neste momento, pense nisso. O que poderia ser descartado ou otimizado na estrutura da música para aumentar sua eficiência?
Afinal, qualquer pessoa que veja uma placa com a palavra "OVOS" saberá que ali são vendidos "ovos de galinha brancos e frescos direto da granja".
| < Anterior | Seguinte > |
|---|








