Quando eu tinha uns 6 anos, aprendi a mexer no toca-discos da sala. Meus pais me autorizaram a escutar a pequena coleção que tínhamos em casa, depois de provar que eu conseguia manter a ordem, sem riscar os LPs.
Entre os meus preferidos, estavam "Money for Nothing" (Dire Straits) e uma outra coletânea, do Bee Gees, da qual não me lembro o nome.
Eu conhecia Bee Gees como nenhum outro colega, havia decorado todas as melodias e me chamavam de brega, numa época onde os garotos da minha idade começavam a cantar "I Was Born To Love You" no ônibus da escola. Boas lembranças, eu adorava essa música do Queen.
Bee Gees me marcou. Havia algo de inexplicável naquelas músicas. É claro que eu não tinha a menor idéia sobre teoria musical, técnicas de composição, ou que um disco era "produzido". Também não possuia mais do que algumas dezenas de referências, discos ou músicas famosas.
O curioso é que durante os anos seguintes, quanto mais eu conhecia novos artistas e aguçava meu senso de comparação, mas eu continuava gostando de Bee Gees. Nunca parei para pensar sobre o assunto, até assistir ao DVD "One Night Only", show de despedida dos palcos, há poucos meses atrás.
As canções continuavam familiares e lindas, mas dessa vez, inevitavelmente, eu escutei com ouvidos de produtor. E pela primeira vez, me dei conta, conscientemente, de que as músicas são mais do que boas, são excelentes. Não pelo fato de eu ter passado a infância escutando Bee Gees. As composições estavam realmente bem acima da média, produção impecável, artistas de primeira linha.
Isso só me reforçou a idéia de que o ouvinte não precisa pensar como produtor musical, nem fazer análises objetivas, para gostar de uma música. Pode parecer estranho, mas às vezes me pergunto o quanto é importante pensar objetivamente durante uma produção. Frequentemente, os clientes me perguntam: "Será que o ouvinte vai perceber todas estas mudanças que estamos fazendo, isso que chamamos de forma, contorno e recompensa?" Sim ele vai! Uma criança percebe, como eu percebi há quase 30 anos atrás. As técnicas que o produtor aprende funcionam, mas na hora da audição, são inconscientes.
As canções dos Bee Gees tinham algo muito claro: melodia, melodia e mais melodia, muito bem escritas, perfeitas, daquelas que prendem o ouvinte no ato. As letras também são ótimas, mas quando criança, no máximo eu entendia 4 ou 5 palavras em Inglês. A produção? Totalmente alinhada com as melodias. Vocais afinados e harmonizados, arranjo esparso, violão e teclados incidentais, clímax musical, pausas perfeitas.
Hoje de manhã, encontrei este artigo por Robin Gibb, um dos "Gees" dos Bee Gees, ensinando como escrever canções que duram. Aí está alguém que pode falar com propriedade, que conseguiu conquistar uma criança de 6 anos pela vida inteira, não através de sucessos momentâneos mega-super-produzidos, mas escrevendo boas músicas. Justamente, o ponto mais deficiente e importante no processo atual de produção musical.
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RESUMO DO ARTIGO (como poderíamos esperar, ele começa com...)
- Melodia Antes de Tudo. "A melodia deve ditar o fluxo das letras. Deve vir sem esforço. Se você não consegue se lembrar dela, então não deve valer a pena."
- Use os Títulos como Inspiração. "Títulos que dizem algo, sem dizer tudo. Às vezes, inventávamos um título à tarde e escrevíamos todas as letras no mesmo dia"
(nota: o título é uma ferramenta poderosa na produção musical, eles já pensavam nisso na hora de compor)
- Escolha a Hora Certa do Dia. "Para nós, as tardes eram perfeitas para escrever a melodia. Acho que quanto mais tempo você está acordado, mais antenado está para escrever. À noite é o melhor horário para cantar, o corpo esquenta antes da voz."
(nota: já li livros que sugeriam exercícios de composição logo pela manhã, quando a cabeça ainda está vazia, descubra o que melhor funciona no seu caso)
- Desafie Outros e a Si Mesmo.
- Espontaneidade é Fundamental.
(nota: isso não significa necessariamente ir para o estúdio sem nada planejado. Funcionava para os Bee Gees, mas eles eram extremamente disciplinados e competentes. Uma boa dica é gravar os testes e anotar as idéias)
- Deixe o Gravador sempre Funcionando.
(nota: também é importante revisitar as gravações demo ou os registros originais, como as chamo em meu livro. Ali está a essência da música, que não pode ser perdida)
- Trabalhe com Prazos.
- Saiba Onde a Música "Fala Mais Alto".
(nota: mais uma técnica de produção, cada vez mais nas mãos dos produtores e, infelizmente, menos conhecida dos compositores. Conheça o contorno da canção, pontos altos e baixos, e não demore para chegar no clímax)
- Deixe seu Ego na Porta. "Quando você está relaxado e se diverte, a criatividade aparece. Aceite as idéias que são melhores do que a sua. Evite se sentir julgado."
- Use as Emoções como Fundação. "Emoções e melodias fazem mágica. Você conquista todas as idades quando canta sobre emoções. Não é algo feminino, todos os compositores deveriam experimentar. Procure maneiras novas de descrever sentimentos, de um ponto de vista original, este é o truque."
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A maioria das músicas utiliza apenas 07 notas, das mesmas 12 notas que existem há centenas de anos. Se você acertar uma combinação de poucas notas, terá uma breve melodia que pode se transformar na essência da sua música, a receita do sucesso. Quase todas as semanas, milhares de pessoas apostam na Mega-Sena e alguém acerta a combinação sorteada. Faça suas apostas!
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Comentários
Por exemplo, ao acordar, escolha um objeto na casa e procure descrevê-lo com palavras interessantes. Isso estimula a nossa capacidade de buscar palavras, sinônimos, metáforas, a construir nossa maneira única de relatar fatos.
Um livro muito legal é o:
"Essential Songwriting Everything You Need to Compose, Perform, and Sell Great Songs"
de C. J. Watson
abs!
Espero que o site possa te ajudar. Veja também o meu curso online, que deve abrir as inscrições nesta próxima semana, pode ser exatamente o que você está procurando,
Abs
Dennis
Eu apenas tenho 14 anos e sou um fanatico, por gravaçao, e tudo o que envolva musica.
Eu tenho um pequeno HOME STUDIO, e gostava de contar com a sua ajuda para aprender mais e mais sobre esta area.
abraço:
antonio cardoso
Cantei em uma banda cover de Bee Gees por algum tempo e as músicas são mesmo incríveis, é maravilhosa a forma como as vozes se harmonizam.
Do álbum "One night only" as músicas que mais me emocionam são "Closer than close" cantada pelo Mauricce e a música com a participação gravada do irmão mais novo Andy, que infelizmente não me recordo o nome.
Abraço
Quando criança, ouvi uma canção que foi uma referência melódica por muitos anos para mim. Só fui identiicar os compositores e intérptretes da música muitos anos depois (Cherry Red / Bee Gees).
As canções tem qualidade quando possuem melodia, harmonia e nuances que arrepiam mesmo, chegamos a lacrimejar e não podemos ter vergonha disto. Existem um tipo de melodia para cada momento, de tristeza, amor, felicidade e muitas outras ocasiões, porém temos que ter o bom senso, que aperfeiçoamos após ouvirmos aquela primeira e inesquecível canção, para separarmos a arte da imposição da mídia.
Parabén pelo texto e agradeço também ao Claudio, que indicou esta agradável leitura.
Pois é, cada vez mais me convenço disso... Uma coisa é gosto particular, depois que você cria referências, adota um estilo de vida, amizades. Depende de contexto, idade, companhias.
Outra coisa é saber admitir que uma música é boa, independente do gosto pessoal. As crianças têm esta vantagem, não? Ainda não possuem referências e "cobranças" do ambiente!
Abs
Dennis
Lembro também de muitas gravações de quando era menor e quando ouço hoje, com "outros ouvidos", fico ainda mais impressionado com a qualidade da produção (não é à toa que são bandas que estão aí até hoje).
Peguei o link do artigo pra ler na íntegra, embora o resumo já diga o suficiente.
E a propósito, excelente site e blog.
Abraço
Abs!
abs.
Claudio
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