Estamos tão acostumados a escutar música gravada que nos esquecemos de como soam bem os instrumentos ao vivo. Ontem eu pude reviver esta sensação.
Não estou falando da Sala São Paulo e nem de orquestras sinfônicas - que sempre são uma grande experiência, sobretudo para quem trabalha com produção e sente falta de escutar música fora da sala de controle. Dessa vez, o clima é mais intimista, descontraído e orgânico - palavra oportuna para descrever um Jazz Organ Trio.
Hammond Grooves é o empolgado Daniel Latorre, num legítimo órgão Hammond B3 (que como qualquer instrumento, sem um bom instrumentista continua sendo apenas um equipamento), o impecável Wagner Vasconcelos na bateria - daquelas de jazz mesmo, pequena, quase "de anão", com tambores reduzidos de sons característicos, peles coated, poucas peças, sem frescuras, mas com grande som - e ainda o showman Daniel Daibem, na guitarra Gibson típica do estilo, semi-acústica, imponente e surrada, provavelmente da época dos trios originais, a julgar pelos metais oxidados.
Daniel Daibem já é conhecido dos ouvintes da Rádio Eldorado de S.Paulo, por seu programa "Sala dos Professores", que sempre nos ensina algo de novo e interessante. Um grande conhecedor de Jazz e música em geral, eu só não esperava que também fosse um excelente guitarrista.
O repertório parece ser escolhido na hora, entre uma música e outra, de acordo com a vibe dos músicos e da platéia. O espaço é suficientemente grande para um bom desempenho acústico, sem deixar de ser intimista. O bar do Terraço Itália tem uma vista exclusiva que Daniel Daibem descreve muito bem como "Google Earth real". Por R$30 de couvert artístico, o show é uma barganha.
Sabe aquela famosa "dinâmica", mencionada incansavelmente no meu blog e nos livros de produção musical, aquela que cria contrastes na música, variando o volume do som de meros 40dB a ensurdecedores 110dB SPL num piscar de olhos, reforçando o contorno da música e dando um impacto surpreendente à apresentação? Aquela que dificilmente conseguimos escutar em casa, mesmo nos melhores CDs e equipamentos Hi-End? Pois bem, ali está ela. E faz muito bem a banda em pedir que o público permaneça em silêncio durante a apresentação.
E tem ainda a caixa Leslie, para os amantes do áudio! Como produtor, eu só pensava como seria legal posicionar meu Zoom H4n no sweet-spot, para captar o som estéreo, acústico, puro e simples. Mas meu lado ouvinte me pedia pra sossegar e apenas curtir o som. De vez em quando faz bem e é necessário sair para escutar um bom som ao vivo. Ao vivo mesmo, não P.A. mal regulado de casa de show.
Só acho uma sacanagem chamar de trio. O pé do organista, fazendo o papel do baixo e pulando num funk de 240bpm, tem vida própria e eu juro que é um quarto membro do grupo.
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