Socorro, Meu Filho Quer Ser Músico!

executivo-mirimMinha tentativa de amenizar uma questão que é séria e certamente preocupa muitos pais pelo mundo afora. Mas como sempre procuro enxergar o lado otimista da situação, decidi escrever de uma maneira descontraída. Talvez ajude famílias inquietas que não sabem se devem ou não incentivar seus filhos.

Estava respondendo um email para um pai preocupado, que naturalmente se questionava sobre a carreira do filho. Dizia que ele só pensava em guitarra, se dedicava muito ao Blues e parecia não se interessar por mais nada. Seria este um bom futuro para seu filho?

Fico imaginando se os médicos, advogados e engenheiros também são questionados por pais indecisos:

"Meu filho fica pra cima e pra baixo com aquele estetoscópio. Fica lendo as bulas dos remédios o dia inteiro e brinca de médico com a prima até de madrugada. Não sei o que fazer, por favor ajude."

"O Júnior parece um homem de negócios. Se veste com terno, fica falando sobre globalização, se interessa por fluxo de capital, bolsa de valores e é um líder nato na sua turma do ginásio. Tudo indica que ele será executivo de uma empresa, não sei mais a quem recorrer."

É como se os pais acreditassem que música não é profissão. O que faria da música uma profissão diferente das outras? Como muita gente, já trabalhei em pequenas empresas, grandes empresas, como autônomo, já contratei advogados e engenheiros, já fiz consultas com inúmeros médicos e tive contatos profissionais com vários tipos de pessoas.

A conclusão é sempre a mesma: em todas as profissões, existem profissionais medíocres e profissionais excelentes. Alguns mal pagam suas contas, outros acumularam riquezas merecidas. Muitos vieram das mesmas escolas e seguiram caminhos completamente diferentes. Uns têm tempo para a família e o lazer, outros mal conseguem dormir. Outros recomeçaram a vida profissional depois de 40 anos de idade.

Na música é a mesma coisa. Como podemos ter certeza que alguém será bem sucedido? Pela escola que frequentou? Pelas companhias? Família? Diploma? (eu tenho um diploma de Engenheiro pela POLI/USP que por muito tempo era considerado garantia de emprego e sucesso profissional. Besteira! Nunca me serviu para nada. E ainda achava aquele curso totalmente antiquado, na contra-mão da modernidade.)

Aí me lembro de uma frase que li há poucos dias. Não estou certo se do Frank Sinatra, Albert Einstein... A frase dizia que o sucesso pode vir pelo talento ou pela obsessão. Aí está a receita! Muito destes jovens curiosos são totalmente obcecados por música. E alguns deles ainda têm talento. O que mais podemos esperar? Nada é certo, mas com isso as chances se multiplicam, não concorda?

Um médico pode fazer consultas, cirurgias, pesquisas, dar aulas, assistência social, cuidar dos funcionários de uma empresa etc, etc. Um músico também tem centenas de opções. Tocar, cantar, escrever, gravar, mixar, reger, ensinar. Não devemos esperar ter todas as respostas com 15, 20 ou até mesmo 25 anos de idade.

Que não me chamem de anarquista, mas eu tenho sérias dúvidas sobre a eficácia do "curso superior", quando saímos do colégio totalmente perdidos e sem a menor noção do que se pode fazer na vida, sobre o dia-a-dia de um profissional ou de uma empresa. E ainda temos que decidir rapidamente para não "perder tempo". Tempo é o que mais o jovem tem! Tempo para pensar, experimentar, errar, planejar, decidir.

É claro que ficar jogando video-game e navegando na Internet até de madrugada não vai ajudar muito. Pelo menos não é isso que se deve fazer por muito tempo.

Para muitas famílias, a questão financeira costuma vir em primeiro lugar. Muito sensato, mas as finanças deveriam ser consequência de realização e não o preço da auto-destruição. Se um jovem consegue sobreviver com o suporte da família até os 17 anos, então é provável que ele também consiga sobreviver até os 22. Estes cinco anos podem fazer TODA a diferença na sua carreira: tempo de descobrir seu talento, ou sua obsessão.

Alguns ícones bem-sucedidos são mais radicais e defendem que só quem larga a faculdade no meio tem grandes chances de sucesso na vida. Porque eles largaram no meio e agradecem até hoje. Não acho que precisamos chegar neste ponto. Podemos fazer um curso enquanto tentamos outras coisas. Mas precisamos de tempo, paciência, tranquilidade.

A minha ficha caiu quando eu tinha 27 anos. Eu adoraria que ela tivesse caído mais cedo. Mas nunca é tarde para se fazer o que gosta!

 

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