No mundo ideal, uma banda contratou um produtor, conseguiu lançar uma demo interessante e atraiu a atenção de um selo.
Neste cenário tradicional, o selo redigirá um contrato que será analisado e aprovado pelas partes e a produção do disco comercial se inicia, financiada pela gravadora.
Embora intérpretes, músicos acompanhantes, compositores e produtor possam ter contratos diferentes entre si e com o selo, podemos dizer que as "partes" se resumem a dois drupos: ARTISTAS e GRAVADORA. Do ponto de vista de interesses, fluxo de trabalho e negociação, o produtor nada mais é do que um integrante da banda, e um cronograma de gastos e atividades começa a ser seguido com o objetivo de se fazer as melhores músicas possíveis.
A gravadora (ou melhor, o selo em questão) está investindo bastante dinheiro na produção e obviamente espera que o resultado se encaixe no seu segmento de mercado: estilo, sonoridade, proposta, público. O tempo normalmente é apertado e o orçamento facilmente pode estourar se não houver um bom controle de horas de estúdio, contratação de músicos, técnicos e equipamentos. Portanto, é natural que um departamento do selo monitore o andamento do projeto, também com o intuito de ajudar e facilitar.
Esta é uma das funções do Departamento de A&R. Antigamente, uma divisão autônoma da gravadora, com recursos, profissionais, departamento de marketing, metas, contatos, um grande catálogo de músicas, intérpretes e compositores, ou Artistas e Repertório = A&R. Hoje em dia, muitas vezes o departamento de A&R se resume a uma pessoa, o representante de A&R, que tem papel fundamental no sucesso do projeto.
Entre outras coisas, o representante de A&R funciona como uma interface entre a gravadora e a banda. Foi ele quem encontrou a página da banda e escutou a demo, concluiu que seria uma boa aposta, escolheu músicas, fez propaganda interna na gravadora, conseguiu recursos e financiou o projeto. Ele pode e deve ser encarado como um aliado.
Aliás, vale lembrar que artistas que estão divulgando seus trabalhos devem se focar nestes profissionais, preparando boas demos e uma estratégia sólida de divulgação. Recebo muitos emails pedindo que eu escute um trabalho e responda se eu tiver interesse. É claro que eu tenho interesse em SER CONTRATADO, mas não sou eu quem vai financiar a produção de um disco! Já o meu interesse pela música não importa muito, pois o gosto pessoal não deve atrapalhar a produção. Sempre acreditei que é possível agregar como produtor musical a qualquer tipo de produção, pouco ou muito, dependendo do estágio atual e abertura do artista. Mais sobre isso num próximo artigo.
Infelizmente, os tempos são outros, a ansiedade é maior e o preparo dos profissionais, em média, caiu. Não estou falando só do representante de A&R, mas também dos compositores, músicos e produtores.
Não é raro encontrar representantes de A&R que não possuem o mínimo de formação musical. Não tocam nenhum instrumento, não entendem sobre gravação, não contribuem musicalmente nem tecnicamente para o projeto e funcionam como um "fiscal". Resultado: são encarados como o fiscal chato que está bisbilhotando nosso trabalho. Natural.
Você não imagina quantos dos discos mais famosos que conhecemos foram produzidos neste cenário. Banda e produtor tendo que dar satisfações o tempo todo, engolindo comentários totalmente inoportunos, sugestões sem fundamentos, discussões, pressões. E quando a banda e o produtor são pouco experientes, o clima fica ainda mais pesado. As inseguranças trazem medos, e os medos se transformam em arrogância, intolerância e atritos. Às vezes o produtor funciona como saco de pancadas entre banda e gravadora, o que acaba desviando seu foco da produção do disco.
Se muitos discos premiados conseguiram atravessar essa guerra, imagine quantos outros excelentes poderiam ter sido lançados, quantas bandas poderiam ter alcançado a glória, não fossem os conflitos entre Gravadora e Artistas.
Se você está começando sua carreira como músico, produtor ou representante de uma gravadora, aqui vai uma dica de quem também não tem 20 anos de experiência: evite discussões, não deixe que o ego de todos interfiram no objetivo final: a Música. Muitos dos comentários podem ser literalmente ignorados. Outros, apesar de pouco sutis e inoportunos, podem fazer muito sentido. Escute, busque o bem estar. Todos podem colaborar e acrescentar.
No final do dia, é mais importante um clima de confiança e produtividade do que profissionais experientes, músicas maravilhosas ou selos de renome. Mais uma vez, assim como na maioria das profissões!
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