O Que é Pré-Produção Musical

O que é pre-producaoSou um verdadeiro fã e defensor da Pré-Produção. Com certeza é a atividade que mais gosto de realizar como produtor musical. Vários produtores e engenheiros que conheço costumam dividir a Produção Musical em etapas: Pré-Produção, Gravação, Mixagem, Masterização. Foi assim que fiz no meu livro e é assim que sempre procuro encarar um projeto.

Essa visão tende a facilitar o planejamento, diminui a ansiedade da equipe, colocando todos na mesma página. Qual o objetivo da sessão de hoje? Já é hora de gravarmos ou devemos finalizar outras questões? O que se espera da mixagem?

Naturalmente, estas etapas não precisam estar claramente divididas e independentes umas das outras. Conheço artistas que são verdadeiros produtores e já estão pensando no arranjo e na mixagem enquanto escrevem uma canção. Há muitos instrumentistas que também atuam como engenheiros de gravação e mixagem. Quem de fato realiza cada etapa e como elas acontecem não é tão importante quanto saber que TODAS devem ser realizadas, numa ordem produtiva.

Um dos erros mais comuns é gravar dezenas e dezenas de pistas ("talvez seja útil na mixagem") e quando chega a hora de mixar, existem tantas sessões, arquivos e trilhas que perde-se muito tempo para escutar, editar e selecionar os melhores takes. Bastante improdutivo.

Outro problema frequente é esperar que a mixagem resolva os problemas de arranjo e mensagem musical. O famoso "fix in the mix". É o que eu sempre digo, uma boa música tem que soar boa na roda de amigos, com violão e voz. Não precisamos de excelentes gravações ou mixagens criativas para mostrar o valor da música. Uma canção PODE e DEVE ser otimizada na sua essência - letra e música - e esta é exatamente a função da pré-produção. 

Assim, antes de gravar ou pensar em qualquer atividade técnica, agendar estúdios ou ligar os equipamentos, a música deve ser estudada, analisada. Vamos pensar de trás para frente. A Masterização não salva uma Mixagem mal-feita. A Mixagem não salva uma Gravação amadora. A Gravação não salva uma Pré-Produção deficiente. A Pré-Produção não salva uma Composição fraca.

No mínimo, cada etapa deveria se preocupar em "não-atrapalhar" a etapa anterior. Se acrescentar, ótimo, mas o perigo está em prejudicar. É isso que costuma acontecer durante muitas gravações (que não conseguem captar a essência dos músicos e da performance). E também em pré-produções. Na tentativa de modernizar, prolongar e "inovar" uma canção, o produtor acaba destruindo a fundação da música, aquilo que foi concebido pelo autor/compositor.

Se a canção é boa e passou no teste de voz/violão, a Pré-Produção deve procurar realçar os elementos fortes e, ao mesmo tempo, esconder os fracos. Existe alguma melodia marcante? Então ela deve ser apresentada com impacto, talvez no início, repetida, na voz e em outros instrumentos. O conteúdo lírico é poético e genial? Então melhor não escondê-lo com instrumentações densas que distraem o ouvinte, nem pensar em gravar 20 instrumentos. A linha de baixo é o destaque da música? Então não precisa pensar duas vezes, tem que contratar um excelente baixista, utilizar a melhor sala e os melhores equipamentos para gravá-lo. É assim que funciona o planejamento da produção.

Na pré, sessões inteiras de uma música podem ser descartadas, para o benefício do produto final - a mensagem musical, a emoção transmitida, por música e letra. Utilizamos sinônimos, palavras que se encaixam melhor na rítmica e fogem do lugar comum. Desenhamos o arrajo e os mapas de mixagem. Que instrumentos, em que posição do palco sonoro, com que intensidade e timbragem. Quando entram e quando saem. O contorno emocional da canção está claro, com crescimentos, respiros, clímax, constrastes, surpresas e recompensas?

Existem inúmeras técnicas de pré-produção. Produtores experientes conseguem escutar um registro original ou assistir a uma performance do compositor e imediatamente imaginar o resultado final. Este resultado final está intimamente ligado à pré-produção. O produtor utiliza-se de reuniões, gravações experimentais e análises (desenhos, mapas, rabiscos) para planejar cada etapa da produção - inclusive custos, recursos humanos e tecnológicos. Na verdade, o termo vem da Indústria Cinematográfica. Imagine começar a filmar um longa-metragem sem roteiro, sem atores, diretor ou iluminação. Quando as cifras são da ordem de milhões, ninguém comete estes erros. Mas na música, falamos em milhares (ou recentemente, centenas) e aí as pessoas acham que podem se dar ao luxo de não planejar. "Vamos gravar e ver no que dá!". Provavelmente vai ser perda de tempo e de dinheiro...

 

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