Aproveitando a pergunta de um leitor, que tal conhecer um pouco mais sobre o papel de uma editora na indústria musical?
O termo "editora" (o mesmo usado para livros) vem do inglês "publisher" e acredito que poderia ser melhor traduzido. A palavra "editar", neste sentido, mais do que qualquer outra coisa, significa "publicar" - tornar algo disponível ao público.
Sabemos que qualquer produto que seja oferecido ao público deve ter uma boa apresentação, ser formatado para esta audiência, com sua linguagem e suas características de grupo de consumo. Aí sim o termo "editar" começa a fazer mais sentido.
Voltando ao exemplo dos livros. Uma mesma história - de um mesmo autor - pode ser editada de várias maneiras diferentes: para um público erudito, para crianças, num formato reduzido de uma coletânea de jornal, em português, em alemão, com capa dura etc.
A editora de livros, entre outras coisas, seria responsável por:
- Encontrar (contratar) autores e manuscritos;
- Remunerar seus autores, tanto por obras acabadas, quanto para incentivar a criação regular de novos trabalhos;
- Estudar mercados e oportunidades;
- Revisar, adaptar, otimizar, traduzir e formatar as obras, deixando-as mais "prontas" para o consumo;
- Divulgar seu catálogo de autores e livros editados para possíveis investidores;
- Criar uma rede de contatos com pessoas influentes do meio: escritores famosos, críticos, estudiosos de literatura;
- Contratar gráficas para impressão e criação de arte;
- Distribuir o produto;
- Tratar dos assuntos legais: direitos autorais, licenciamentos internacionais etc.
Numa época remota, onde a única forma de se publicar músicas era através de partituras, uma editora musical funcionava exatamente como sua equivalente literária. Aliás, por muito tempo, a única maneira de se registrar, distribuir, copiar, vender ou divulgar músicas era na forma impressa e, já nesta época, as editoras musicais se especializaram em contratar compositores e autores de letras.
Uma das grandes metas de uma editora era conseguir que seu repertório fosse executado por bandas e orquestras, recebendo rendas dos licenciamentos e repassando uma parte para os compositores (tipicamente 50% / 50%). A dificuldade em se fiscalizar e gerenciar diversos licenciamentos ao mesmo tempo fizeram surgir órgãos como o ECAD, que em teoria são muito interessantes, mas vamos deixar este assunto para outro post.
Com o tempo, surgiram novas formas de se registrar e publicar músicas, mais especificamente os discos. Neste momento, as possibilidades de utilização do repertório aumentaram consideravelmente. Aa editora - representante do compositor - poderia agora licenciar seu repertório para gravação, em diversas versões, por diversos artistas, atingindo um público bem maior e participando de novas fontes de rendas, como execuções em rádios.
Aparecem as gravadoras, originalmente especializadas em... gravar! Naturalmente, as gravadoras e seus selos começaram a agregar diversas competências: estúdios, engenheiros, equipamentos, produtores, arranjadores, intérpetes, músicos acompanhantes, departamentos de marketing e distribuição, gerenciamento de carreira de artistas etc.
No mesmo ritmo em que caiu a comercialização de partituras, aumentou o volume de negociações entre editoras e gravadoras, a ponto de muitas delas se fundirem em uma única organização.
É por isso que, hoje em dia, muitas editoras nem são conhecidas do público, não aparecem para os compositores como entidades independentes. Mas nem por isso deixam de existir - continuam fundamentais para o desenvolvimento e a inserção de compositores no mercado fonográfico.
Particularmente, penso que, mais do que nunca, a edição de músicas é um negócio promissor e essencial para a indústria moderna. As gravações podem já não representar o negócio que foram no passado, mas a formatação e o licenciamento de obras sempre serão necessários e lucrativos.
Compositores, profissionais ou não, raramente conseguem que suas obras caiam nas mãos de quem pode fazer a diferença. Elas precisam ser editadas e atualmente isso pode significar produzir uma demo de alta qualidade e enviá-la para a pessoa certa. Simplesmente jogar na Internet nunca foi e nunca será a solução. Insiste no erro o compositor (ou intérprete) que ainda espera ser descoberto um dia.
O compositor é especialista em compor, não necessariamente sabe como desenvolver produtos e mercados, não possui uma rede de contatos com gravadoras ou promotores de eventos, não conhece muitos dos aspectos legais e necessita de uma fonte de renda para bancar suas despesas, ter sua arte valorizada e se manter criativo. É aí que entra a editora.
Com raras exceções, todo compositor, experiente ou não, deveria ser contratado de uma editora para maximizar suas chances de sucesso. As oportunidades passam a ser rastreadas, os negócios acontecem e todos ganham. Muitas editoras são desvinculadas de gravadoras e oferecem serviços novos e interessantes, sobretudo no formato online.
Onde estão as nossas?
Se você conhece editoras que estão buscando artistas e repertório, deixe aqui seu comentário. Como contatá-las? Qual o modelo de negócio? Casos de sucesso? Compartilhe sua experiência. Muitos leitores são compositores e têm dificuldades para editar seu trabalho e atrair gravadoras.
O que vemos atualmente no mercado é um excesso de oferta de selos - que acabam desempenhando algumas funções de edição. Mas muitos compositores não se interessam por gravar e não querem assinar um contrato com um selo. Por outro lado, possuem um repertório que poderia ser editado e se tornar interessante para muitos selos e artistas.
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