Se você acompanha as revistas especializadas (vale comentar que, infelizmente, as nacionais ainda estão bem abaixo do nível do primeiro time americano e inglês, mas isso é assunto para outro artigo...), provavelmente já leu alguma coisa sobre equalizadores de fase linear. Também é provável que você se lembre que os Linear Phase EQ "não geram problemas de fase" - os editores adoram esta frase! Mas o que realmente ela significa e quando devo usar um EQ deste tipo?
INTERFERÊNCIAS DE FASE
O primeiro conceito de que devemos nos lembrar é que não escutamos "fase". Se você inverter ou atrasar um sinal no seu software de edição, modificando sua fase e escutá-lo em "solo", não perceberá nenhuma diferença!
As diferenças de fase começam a ficar audíveis quando um som interfere com outros. E isto acontece se, e somente se, existem dois ou mais sinais com diferenças de fase competindo na mesma frequência. Nesta situação, o sinal resultante (mixado digitalmente, eletricamente ou acusticamente) apresentará picos e/ou vales no espectro que podem alterar significativamente o timbre e a percepção do ouvinte.
Casos comuns de interferência de fase: microfonação da mesma fonte com mais de um microfone, filtro-pente devido a reflexões dos monitores nas paredes e ondas estacionárias que alteram os graves em salas não tratadas.
É importante reforçar que sinais isolados ou sinais que não competem no espectro não geram interferências. Assim, um baixo elétrico e uma flauta doce dificilmente apresentarão qualquer problema de mudança de timbre quando mixados, mesmo que a fase deles seja drasticamente alterada.
EQUALIZADORES TRADICIONAIS
Os EQs analógicos, bem como a maioria dos seus irmãos digitais, utilizam um processo de equalização que naturalmente desloca a fase do sinal, às vezes em muitos graus, e em uma larga faixa do espectro. O sinal de saída, em comparação com o sinal de entrada, possui grandes diferenças de fase, além, claro, do ganho ou corte de intensidade aplicado pelo equalizador.
As mudanças de fase impressas pelo EQ dependem do ganho, da banda de atuação e do projeto do equalizador. Como vimos, a sinal isolado não apresenta nenhum problema de fase, mas começa a criar problemas quando é mixado com outros sinais semelhantes.
Um caso típico é quando mixamos um sinal original com uma cópia equalizada. Por exemplo, vocais a frente e mais presentes com cópias nas laterais, mais distantes. Se as cópias foram equalizadas por um EQ não-linear, a mixagem poderá apresentar problemas de fase, como filtro-pente ou concelamentos em algumas notas. Outro exemplo é quando equalizamos um sinal estéreo, onde cada canal do sinal sofrerá suas próprias defasagens e interferirá no outro. Ou ainda, quando um sinal DI e seu par microfonado são equalizados.
EQUALIZADORES LINEARES
Utilizando o poder de computação e filtros avançados, um EQ digital pode ser desenhado para não criar defasagens. Ou seja, o sinal de saída ter exatamente a mesma fase do sinal de entrada, em todo o espectro, podendo ser recombinado sem nenhum problema. Nos exemplos acima e, principalmente, na etapa de masterização (onde sinais de banda larga são equalizados e recombinados) um EQ linear pode ser muito útil.
Mas como nada é de graça nesta vida, existe uma barreira para usarmos EQ linear em todas as trilhas e projetos: poder de processamento. Este tipo de EQ consome MUITO processamento e rapidamente esgota as capacidades do computador. É por isso que modelos clássicos, como o onipresente LinEQ da Waves, não possuem tanta resolução na escolha das frequências, além de gerarem grande latência, inviabilizando aplicações em tempo real. Com certeza esta é uma questão de tempo. O rápido progresso dos processadores e placas DSP permitirtá que em poucos anos utilizemos quantos EQs lineares fores desejados. Mas isso nos leva ao outro problema...
CARÁTER E PERSONALIDADE
EQs tradicionais não só deslocam a fase, como também "colorem" o sinal. Pequenas ressonâncias, distorções, harmônicos, "falhas" e atuações que alteram o timbre. Para melhor ou para pior, a gosto do freguês. Esta personalidade, característica de alguns modelos históricos como o Neve 1073 e outras pérolas britânicas, é altamente desejado por engenheiros de mixagem, a ponto de se tornarem "segredos" da criação sonora. Réplicas digitais destes modelos famosos penam para conseguir reproduzir este caráter.
Como você já deve imaginar, os EQs Lineares, por outro lado, são muito "transparentes", precisos, cirúrgicos, limpos. Excelentes para algumas situações, mas pouco empolgantes para outras. Mesmo que o poder de processamento nos brinde com infinitos EQs lineares na mixagem, provavelmente ainda vamos recorrer a plugins menos "comportados" e principalmente, aos queridos equipamentos analógicos empoeirados que parecem esculpir o som como ninguém.
É por isso que existem diferentes EQs para diferentes funções. Corretivos, criativos, cirúrgicos, mixagem, masterização. Nada como uma boa coleção de EQs. Tem um 1073 sobrando por aí? Eu pago bem...
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