Se você é produtor musical, freqüenta estúdios ou acompanha o mundo da mixagem, provavelmente já se deparou com um par de NS-10. Ao menos ouviu falar delas ou leu alguns artigos bastante ambíguos.
Desde 1978, quando foi lançada no mercado, a YAMAHA NS-10 tornou-se referência de monitores para estúdios profissionais. A ponto de estar presente na maioria das fotos de salas de controle, onde são identificadas pelos cones brancos inconfundíveis, praticamente uma marca registrada dos estúdios "sérios".
É difícil encontrar outro equipamento que tenha tantos defensores.... e tantos opositores ao mesmo tempo.
A revista ingelsa SOUND ON SOUND publicou uma artigo na penúltima edição (Setembro), procurando identificar as razões desse caso antigo de amor e ódio.
A história conta que a NS-10 nunca teve boa aceitação no seu mercado alvo - sistemas Hi-Fi domésticos. Consumidores, apoiados por inúmeros testes técnicos, afirmavam que seu som era pouco equilibrado, com falta de graves, excesso de frequências médias, demasiado brilhante. O design do produto justifica as deficiências. As caixas são seladas e as relações entre tweeter e woofer não são nada comuns (funcionamento acústico, design e posicionamento).
Curiosamente, ela começou a ser utilizada no mundo do áudio profissional, principalmente como monitor de mixagem, tendo muito boa aceitação de engenheiros e produtores, numa época em que a onda "freelancer" estava crescendo. Profissionais eram reconhecidos por seus equipamentos e valorizavam poder trabalhar com as mesmas caixas em qualquer estúdio ou situação. Elas eram bastante portáteis, alguns engenheiros famosos a utilizavam, seus cones brancos eram diferentes. Não demorou muito tempo para que fosse criado um misticismo, transformando-as em itens altamente desejados, mesmo que os interessados nem soubessem o porquê.
Até hoje, ainda acho que essa é a grande razão do seu sucesso - hype, fofoca, fama, tal produtor usa, tal disco foi mixado nelas... Mas já que o som emitido por elas é facilmente interpretado como "deficiente" ou até mesmo "totalmente inapropriado para audições", porque essa fama se prolongou por tantos anos?
Algumas análises mais detalhistas parecem revelar que o design criado pelo projetista Akira Nakamura não foi tão inocente quanto se imaginava. Akira teria priorizado outros aspectos da audição humana. Fatores psico-acústicos que, em algumas situações, tendem a ser mais importantes para o ouvinte do que o equilíbrio tonal.
O comportamento "temporal" das NS-10 é, no mínimo invejável, mesmo considerando a tecnologia e quantidade de produtos atuais. Isso significa que elas se comportam com velocidade e precisão. Conseguem reproduzir com alta qualidade os transientes dos sons, as rápidas diferenças e nuances de volumes. Os atrasos entre sons de diferentes frequências é muito pequeno. Isso significa, por exemplo, que todas as notas de um baixo parecem vir do mesmo lugar, da mesma distância, como acontece na música ao vivo. Pode parecer estranho, mas muitos projetos de caixas de som não contam com esta precisão. Valorizam o equilíbrio tonal e como consequência, perdem qualidade na resposta temporal.
Os estudos afirmam que as caracterísitcas "temporais" do som são mais importantes do que os seus aspectos "espectrais". Vozes familaires continuam familiares em qualquer sala ou condição, desde que os elementos temporais que caracterizam aquela voz não sejam radicalmente modificados - articulação, envelopes de ataque, decaimento, timbres. Podemos reconhecer a voz de um parente no banheiro, num ginásio ou no telefone.
Por esse motivo, as NS-10 tonaram-se grande reveladoras de problemas de mixagem. Justamente os problemas mais difíceis de se lidar, planejar e corrigir - os temporais. Eles não são lineares e não podem ser ajustados por equalizadores. O engenheiro de mixagem precisa escutá-los com precisão, para que o áudio final não contenha problemas e seja bem reproduzido em qualquer sistema, profissional ou doméstico. Além disso, por serem "brilhantes" e exageradas nos médios-agudos por natureza, as NS-10 facilitam ainda mais na identificação de problemas dessa natureza. Um defeito que virou aliado dentro do estúdio.
Para ajudar ainda mais na popularização, o posicionamento das NS-10 nos estúdios normalmente está associado à proximidade com paredes ou mesas de mixagem, reforçando os graves que são fracos. Uma compensação muito bem-vinda. Quando reproduzidas em alto volume, este mesmo design, limitado e antiquado, gera distorções. Resultado: o engenheiro é obrigado a trabalhar em volumes moderados, que melhor refletem as condições do usuário final que escutará o disco, podendo identificar elementos que estão exagerados no mix.
Use-as para os objetivos certos, montadas corretamente, conhecendo suas limitações, e terá um caso de amor.
Use-as para escutar discos, com volume alto, em uma sala "neutra", e pode se preparar para o divórcio.
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