Home Studio a Todo Vapor

thumb_tascam_4trackDesde sempre, o artista deseja gravar em casa e produzir seus próprios trabalhos. O conceito do home studio é antigo e o maior obstáculo nem sempre é o custo dos equipamentos.

Há alguns anos, você precisaria de um técnico em tempo integral em casa para fazer aquilo tudo funcionar. Sem falar nas habilidades de engenheiro de gravação, engenheiro de mixagem, produtor, arranjador e instrumentista. No final do dia, a competência do artista era mesmo compor, tocar um instrumento ou interpretar. Mesmo assim, sempre desejou ter a oportunidade de gravar em casa.

Não que isso fosse a melhor solução para o mercado, para o público ou para o próprio artista.

Nos tempos atuais, reinado do Home Studio, muitos dos obstáculos acima continuam válidos. De fato, pouca coisa que passa por um estúdio não-profissional chega a ser lançada no mercado, como algo comercial, que cruza um nível mínimo de qualidade técnica e artística.

O Home Studio, por definição, não tem orçamento, pessoal qualificado e nem marca atrativa para selos e artistas. Equipamentos sim, normalmente muito melhores do que aqueles usados por grandes estúdios na década de 70, mas equipamentos não fazem música sozinhos e é por isso que o Home Studio, como entidade, não consegue substituir as tradicionais gravadoras.

Muitos estúdios caseiros, porém, possuem competência para participar das grandes produções.

E participam, quando a grana aparece. Se o selo investir, ótimo, se o artista tiver dinheiro sobrando, maravilha. Mas as chances são pequenas. Sempre precisaremos de pessoal qualificado, cujo custo de hora-trabalho não baixou na mesma proporção dos equipamentos.

Fazer um bom disco continua sendo trabalhoso e custoso.

O incentivo financeiro - que data de séculos atrás - sempre foi um dos maiores catalisadores para a produção artística (aí está uma boa inspiração para o artista: dinheiro).

Artistas mal sucedidos tendem a malhar suas gravadoras como corporações do mal. Se olharmos para a história da música, a grande maioria dos discos e carreiras não existiria se não fosse o pontapé orçamentário dos grandes selos:

"Aqui estão os 200 mil dólares, não me interessa se vai torrar em whisky ou comprar uma guitarra nova. Volte daqui a seis meses com um belo disco, contendo 3 singles e pelo menos 5 outras boas músicas. E não se esqueça, isto é um empréstimo! Conforme assinamos - e ninguém botou uma arma na sua cabeça - você precisará pagar de volta esta quantia com juros".

E foi assim - verdade seja dita - que a maioria dos grandes discos veio à tona.


rebecca-blackTudo mudou, tudo está mudando. Se nem os veteranos do mercado conseguem explicar como funcionará a Indústria Musical nos próximos anos, não sou eu quem vai afirmar nada. Por enquanto, nos resta aguardar que o mercado se adapte gradualmente, naturalmente.

(Meu palpite continua sendo: todo e qualquer conteúdo digital instantaneamente e gratuitamente disponível para qualquer um - evolução do que estão começando a chamar de cloud storage - e consumidores assinantes de poucos e bons serviços, pela conveniência e pelo tratamento VIP, não pelo conteúdo.)

A boa notícia é: 5 bilhões de dólares foram investidos em artistas em 2009 - o negócio ainda é grande e lucrativo. Se assumirmos um volume de 100.000 discos "oficiais" lançados por ano (o número não é muito diferente disso), chegamos em um orçamento de US$50.000 por álbum, nada mal. Nomes quentes talvez ainda consigam 100 ou 200 mil, outros 10 mil, se tiverem sorte.

R$100.000 é suficiente para alugar bons estúdios, contratar músicos de primeira linha, dedicar vários meses para a produção, fazer pré-produção no Home Studio, divulgar em grande estilo e até conseguir uma boa exposição na TV. Me dê este orçamento e e eu te transformo num pop-star, por longas 4 semanas! Se tiver R$50.000, eu posso produzir um bom disco - de novo, usando o Home Studio para boa parte do projeto. Com R$20.000, dá para fazer algo decente, dependendo da competência dos compositores e dos músicos, possivelmente usando somente um home studio. R$10.000? Podemos arriscar algumas músicas, sem muita pretensão.

A verdade é que o orçamento por produção vem diminuindo e as pessoas esperam ter o mesmo resultado de projetos super-financiados.

(Aparentemente. a mãe da Rebecca Black gastou R$4.000 na produção do single e do vídeo que estão dando o que falar. Foi caro ou barato? Seria legal explorarmos isso em outro artigo, mesmo porque o sucesso desta música provavelmente se deve ao fato de ela ser muuuuuuito ruim.)

Vale lembrar que apenas poucas bandas e artistas continuarão fazendo sucesso a ponto de viverem da música. Sempre foi assim e assim sempre será, não tenha dúvidas. No entanto, a música continua fundamental para o seu vizinho, para o pré-adolescente imaturo, para o jovem rebelde da escola, para o professor de química, para o tiozinho gente boa da banca de jornal e para a atriz bonitona. Consequentemente, músicas sempre serão produzidas. Ponto final.

Só não está claro quem vai pagar a conta em cada projeto. Até onde sei, ninguém decidiu trabalhar de graça só porque não se vende mais CDs. Toda boa produção continua demandando artistas, técnicos, produtores - que não só merecem, mas dependem da remuneração.


les_paul_home_studioÉ neste cenário atual que - (in)felizmente - o Home Studio tornou-se peça fundamental do processo produtivo.

Por um lado, viabilizou a existência das produções de R$1.000. Não que estas produções sejam boas, consigam remunerar bons profissionais, nem mesmo possam lançar uma carreira de sucesso. Mas no meio de milhares de estúdios caseiros, há de fato aqueles competentes que atraem orçamentos bem maiores.

Podemos contar na mão quantos artistas ou bandas conseguiram relevância sem um bom investimento financeiro. Seja pai-trocínio ou verba de selos, o perigo é achar que a fama está a R$10.000 de distância. Indicativo de inicantes deslumbrados.

Pausa para concatenar as idéias: Orçamento - OK. Profissionais - OK. Boas músicas - OK. Boa produção - OK. Junte tudo isso e o fato de ser um home studio ou um tradicional grande estúdio pouco importa.

Estatisticamente, apenas um pequeno percentual das músicas produzidas em Home Studio atinge um certo grau de "prontidão" e aceitação. Justamente porque um ou mais desses ingredientes faltou na receita.

Por outro lado - 9 entre cada 10 músicas produzidas recentemente passaram, em algum momento, por um home studio. Na verdade, quanto mais pesquisamos sobre a história das gravações, mais descobrimos que grandes clássicos foram gravados em banheiros, cozinhas e quartos. Tem música da Madonna que foi produzida num quarto de hotel.

Mais uma vez, minha intenção aqui é desmistificar o conceito de Home Studio. Por si só, ele é fantástico - e não é novidade. A preocupação do seu proprietário deve se voltar à contratação de talentos, busca de artistas e repertório, financiamento, experiência e prática. No final do dia, não importa qual é o equipamento existente no home studio.

Talvez apenas 5% dos estúdios não-profissionais participem das produções comerciais. A pergunta que devemos fazer é: qual o objetivo do meu home studio? Entrar neste grupo seleto que produz hoje a todo vapor e participa de 90% das músicas que são lançadas? Ambiente de criatividade pessoal? Laboratório para aprender e aperfeiçoar um ofício?

Não é a toa que quase todos os grandes estúdios fecharam suas portas, mas não podemos traduzir isso em "a produção fonográfica está terminando". Pelo contrário, nunca se produziu tanta música na história!

Desde que tenham experiência e dedicação para se encaixarem nestes 5%, esta é uma boa notícia para os profissionais free-lancers, hobbystas, para bandas da cena indie e até para grandes nomes da música, que já há alguns anos montaram seus próprios estúdios e selos.

Isso me lembra uma frase que nunca saiu da minha cabeça, abaixo. Podemos levar este conceito para Home Studios e profisisonais da música, sobretudo nos tempos atuais, de orçamentos decrescentes:

"Qualquer produto existente no mundo pode ser produzido com um pouco menos de qualidade e vendido por um preço um pouco menor"


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Numa ponta, temos os pequenos estúdios participando ativamente da produção mundial, como escritórios-residência do próprio artista, como laboratórios de criação, ambientes de ensaio, salas de mixagem de produtores free-lancers ou cabines de gravação de trilhas base. De uma forma ou de outra, eles estão inseridos no processo.

Na outra ponta, temos os selos independentes, sempre fundamentais para o financiamento, direção artística, divulgação e distribuição (e de uns tempos para cá: inovação-digital-experimental-em-redes-sociais-famintas-de-boa-música-mas-saturadas-do-que-há-de-pior. E bota ruim nisso). Esta nova "gravadora" precisa, mais do que nunca, fazer mágica. Além de descobrir o artista e planejar sua carreira, torná-lo um produto interessante e vendável num mar de coisa ruim. E, de novo, bota ruim nisso.

No final do dia, o selo pode até vender bola de gude e ganhar dinheiro através de anúncios online, mas a figura do artista e sua boa música serão o seu veículo publicitário, seu apelo, sua base fundamental.

E como andam estes selos independentes? Aparentemente, em franco crescimento, pelo menos quando encarados como grupo. Juntos, já representam aproximadamente um terço dos lançamentos. É o famoso mercado independente, na área preta do gráfico.

(Não confundir estúdio com selo. Vimos que 90% das produções passam por estúdios pequenos, mas muitas delas, 2/3 na verdade, continuam sendo financiadas por grandes gravadoras)

Este gráfico stá relativamente desatualizado (e provavelmente em poucos dias alguns destes nomes nem existirão mais), mas indica como estava o mercado há pouco tempo, com liderança do grupo indies.

Definitivamente, esta é a era dos pequenos. E como bem lembra um amigo e colega produtor, este fenômeno de cauda-longa (que parece estar na boca de todo pseudo-intelectual-digital) apenas indica que o mercado se fragmentou - em inúmeros nichos, perfis, veículos e interesses. Não siginfica que todo e qualquer pequeno vai se dar bem. Aliás, pelo contrário. Já vimos que poucos Home Studios possuem competência do nível dos grandes. Esta fatia independente da pizza é formada por milhares de pequenos negócios com orçamentos limitados, déficit de pessoal, pequeno poder de negociação, alcance reduzido e poucos clientes no cast.

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Aproveitando o assunto (eu estava mesmo ansioso para usar este gráfico que baixei do wikipedia), aqui está a proporção dos mercados consumidores de música. Como disse há pouco, não importa quem vai pagar a conta, mas se você produz música e tem a oportunidade de se dirigir a mercados internacionais, vale saber quem tem mais dinheiro e disposição para gastar com música (aparentemente, a Alemanha acaba de passar o Reino Unido).

Brazil? Patético, principalmente quando consideramos população, riqueza e cultura musical. Menor que a Itália? Menor que Holanda? Nossa produção é ainda muito pequena, mal financiada e mal distribuída.

Quanto a nós, você e eu, apaixonados por música, seguimos por aqui, nos concentrando na música, fazendo nossa parte no processo, contando com cada peça da engrenagem, apostando na boa música - quem sabe, em poucos anos, o povo não volta a escutar algo decente e se interesse a pagar por isso...

 

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