Havia várias semanas que eu não saia para tomar um chopp. Quando meu amigo Anísio chegou, antes de me dar a mão, perguntou: "Você não sabe quem morreu?". O Mammana ligou em seguida, com as últimas notícias, ainda não tinham confirmado sua morte. Mais tarde no carro, de volta pra casa, a rádio que eu gosto só tocava os hits. Curiosamente, não me lembro de ter escutado uma só música do Michael Jackson naquela rádio, antes daquilo. Neste momento, outro amigo, Telles, me ligava. Como se um parente meu tivesse morrido. Eles sabiam o quanto eu gostava de M. Jackson.
No bar, refletíamos sobre sua grandiosidade, ao som de Don't Stop 'Til You Get Enough, uma das minhas preferidas, de 1979, e chegávamos a uma breve conclusão: muito do sucesso se devia ao trio Jackson-Jones-Swedien. Arriscamos: cada um representava 33%, foi uma daquelas parcerias mágicas, onde um completava os outros.
Enganei-me. Cada um era 100% e a soma talvez seja uma das últimas da História da Música. Jackson: um artista completo, inclusive com os graves problemas de um artista completo. Letras, música, dança. Quincy Jones: produtor dos produtores, visão aguçada, arranjos geniais, o pai que ele sempre precisou. Bruce Swedien: mago do áudio, que deu forma às idéias e imortalizou os 300% de resultado nos discos.
Quando parei na locadora de vídeo, uma menina no caixa tinha, não um, mas dois DVDs do Michael na mão. Não via alguém comprar um CD ou DVD dele há anos. A ponto de me sentir brega quando na última viagem aos EUA, comprei o vinil da edição de 25 anos, que ainda está com a etiqueta de $18,99 e não tive coragem de "desgastar" e escutar.
Para mim, Michael Jackson já havia morrido há muitos anos. Porque quando alguém morre, você sente saudades, mas eu já tinha saudades. Dos lançamentos e da euforia de acompanhar um ídolo que deixou uma lacuna até hoje, por cerca de 20 anos. Com 7 anos de idade, eu cantava todas do Thriller sem saber uma palavra em inglês. Apertava o botão de PAUSE no toca-fitas e escrevia as letras como eu achava que elas deveriam ser escritas.
Do meu ponto de vista de fã, e com todo o respeito que tenho por ele, pouco me importa se ele morreu ontem ou se ainda está vivo. O corpo foi ontem. A produtividade há tempos. A música nunca morrerá. Esta idéia de ser imortalizado por uma obra é fascinante. O melhor dele, da pessoa, das parcerias, da história de vida, está ali nos discos, para quem quiser apreciar. E deveriam apreciar com mais frequência. Uma pena que aquela rádio nunca toque o som dele. Uma vergonha que o DJ do bar nem pense em colocar uma num dia "normal". Lamentável que a menina da locadora tenha esperado sua morte para comprar e ouvir.
E já que estamos falando da imortalidade, se estivermos em 2089 e você for meu bisneto que encontrou este artigo escondido nos arquivos da Internet, não perca tempo! Vá escutar Michael Jackson. Se quiser, pode usar o meu vinil de colecionador, que certamente está bem guardado, ainda com a etiqueta de $18,99.
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Comentários
Que legal, cara, este seu relato é fantástico. O CD inteiro do Thriller parece ter vida própria.
É importante você falar da diferença ABSOLUTAMENTE GRITANTE entre a sonoridade de alguns CDs, porque os ouvintes da nova geração precisam acreditar que esta diferença existe e é de fato notável.
O problema é que só percebemos a diferença quando temos uma referência melhor. Quem nunca escutou um CD bem produzido não tem referências melhores, e está perdendo muito da experiência musical, sem saber.
O CD Thriller de 25 anos tem algumas faixas no final, regravações de clássicos do disco por artistas modernos. A diferença de sonoridade também é gritante, principalmente pelo fato de você escutar o CD original primeiro, e logo na sequência, as produções atuais.
Daniel, seria possível você me enviar um exemplo de áudio processado pelo ORBAN e o mesmo trecho original?
Abs,
Dennis
Infelizmente, dia 01/07 foi quando toquei minha primeira música do MICHAEL no ar, na Metropolitana.
Todos os áudios da rádio passam por um processador antes de ir ao ar, um Orban (www.orban.com).
Depois de mais de um ano tocando pop e black senti um arrepio ao ouvir Billie Jean naqueles monitores que eu tanto conhecia. O som brilhava, dançava...
Ah, a qualidade... a separação do estéreo, os graves redondos, os detalhes...
Depois de 5 minutos com o volume no máximo, o som da rádio voltou a ficar cinza. A diferença de qualidade sonora entre o que eu tinha acabado de ouvir e a nova música da artista mais conhecida nos EUA era ABSOLUTAMENTE GRITANTE.
Quantas Beyonces, Chris Browns, Wanessas e Ja Rules vou ter que ouvir, antes de ver aquelas caixas se colorirem novamente?
Na mala ele trouxe um CD Player da Sony, um dos primeiros do pedaço, e alguns discos.
Entre eles, Thriller, o sucesso do momento.
Nessa época eu devia ter uns 9 anos, nossa como adorei o disco.
Eu e meus irmãos ligávamos o som quase no último volume e dávamos o play na trilha 04 só para ouvir a voz sinistra que dizia:
"Darkness falls across the land
The midnite hour is close at hand
Creatures crawl in search of blood
To terrorize yawls neighbourhood ..."
Era apavorante, tanto a voz quanto a qualidade do som!
Sentíamos como se estivéssemos dentro do vídeo-clip.
Lembranças... Acho que o Michael faz parte de pelo menos um momento da vida de cada um de nós.
Farewell Mr. Jackson, may your soul rest in peace!
Hoje soube que os CDs e DVDs do ídolo estão vendendo agora mais do que nunca. E me pergunto: POR QUE, MEU DEUS? Por que é que uma estrela, um artista que revolucionou na voz, na dança, na presença de palco, não foi ouvido quando deveria ter sido? Porque a TV e aquela radio que vc estava ouvindo não deram espaço quando deveriam ter dado. O que sobra é a vontade de que agora dêem, e que as pessoas ouçam com os mesmos ouvidos que ouvíamos Thriller em casa há muitos anos atrás - e como ouvi no seu estúdio há alguns meses pra matar a tal "saudade".
(A propósito, meu irmão gostava tanto deste álbum que cheguei a ter pesadelos noturnos de tanto ver o clip de Thriller, me arrepio até hoje!)
A vida continua a musica vai tocar muita gente, o cara é um genio.
Viva The King Of Pop....
Realmente ele era um gênio completo, ao contrário dos artistas do pop atuais que só sabem dublar e copiar uns passos de dança no palco.
O que me surpreendeu foi que eu tava uns 2 meses sem ouvir o Michael, e ontem a tarde(antes de saber da notícia) eu tava ouvindo as musicas dele e baixando alguns shows dele. Horas depois vim saber da notícia e fiquei arrepiado. Tem coisas na música que não tem como explicar, é só energia.
Enfim, felizes somos nós que conhecemos o "verdadeiro" MJ.
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