Agora há pouco no estúdio conversava com um amigo sobre os ídolos atuais. Em época de concursos televisivos de humilhação pública e busca desesperada pela fama, vamos parar um minuto para refletir.
As bandas que escutávamos quando jovens influenciaram boa parte da nossa cultura musical. São nossas referências de interpretação, estilo, variedade, versatilidade, arranjos, harmonia, instrumentos... a lista é grande. Funcionaram como atalhos para a descoberta de outros artistas, para a busca de bandas consagradas e para a criação de músicas que vieram na sequência. O poder do pop-teen é colossal e não acho que está sendo usado com responsabilidade. Ou sabedoria.
Os mesmos produtores e empresários do meio que definem hoje o que é pop, continuarão dependendo do público amanhã. Um público que não será mais tão ingênuo e receptivo. Pessoas que desenvolverão seu discernimento musical, com muito mais referências para escolher, julgar e consumir. Forçá-los a engolir música de baixa qualidade não seria um tiro no pé? Ou será que a raíz do problema está na falta de talentos?
Não mais teens, a turma dos 20 anos pegou o auge da década de 90, muita coisa boa. Se por um lado, já refletem uma geração online, sem muita fidelidade a artistas e estilos, tendo acesso a tudo e a todos, por outro, ainda possuem um senso de referências. Já escutaram bastante, desenvolveram gostos e escolheram tribos. Aproveitam o acesso à informação para estudar, aprender, ganhar dinheiro e ter opinião. Estão cada vez mais apreciando a volta do clássico, justamente pela falta de boas novidades, as regravações e remixes. Escutam a coleção de CDs dos pais (talvez a última geração que de fato colecionou discos). As fracas bandas que ouviam poucos anos atrás, quando eram adolescentes, também envelheceram. Esses falsos ídolos, quando tentaram se adaptar, perderam a essência. Se insistiram no estilo teen, caíram no ridículo. Vamos lembrar - a diferença de atitude e maturidade entre 15 e 25 anos é mais gritante do que entre 25 e 35.
Uma geração anterior, os jovens de 30 por sua vez, foram expostos à nata dos anos 70 e 80. Não tinham tanta distração musical e as referências eram de alta qualidade - falava-se em carreira, investimento das gravadoras, consistência, álbuns, disco novo. Eles ainda absorviam sem preconceitos os LPs dos pais. Conseguiam ir a grandes shows por um preço justo, sem precisar dormir em barracas nas filas insanas. Aprenderam instrumentos, a tocar em bandas, entendem o real papel e responsabilidade de um músico.
Mas o que dizer sobre a geração de teens que nasceu nos anos 90? Estão começando a ser alvo de bandas e artistas, ainda não podem e não querem comparar. Vão engolir e admirar aquilo que está ao alcance, mais presente nos seus canais de informação. TV e rádio ainda pesam muito, adicione as comunidades do Orkut e provavelmente estamos falando de 90% do que influencia as suas decisões. Pois bem, o que está na mídia? O que é de fato a base para as discussões entre os seus amigos, virtuais e presenciais? Esse artista ou banda em evidência merece essa posição de destaque? A responsabilidade de influenciar toda uma geração? Pode até ter seu valor, mas se tornar A REFERÊNCIA de massa me parece um exagero.
Muitas das minhas referências quando eu era adolescente continuam fortes. Artistas que ainda tocam, criam novas músicas, interessantes, que vendem por anos e anos. São respeitados mesmo por quem não gosta. Já a referência da minha sobrinha de 16 anos não é a mesma do ano passado. Ora, o que é bom deveria durar, certo? Se não aconteceu, alguma coisa estava errada... Será que existe realmente esse ídolo especialmente projetado para o público teen? Por que não poderia ser o mesmo dos jovens adultos, ou dos pais deles?
Se ele existe, está em extinção. Vamos fazer uma aposta - pegue a banda mais popular desse público teen e veja onde ela estará daqui a 5 anos. Melhor ainda, daqui a 2, minha aposta é: anonimato. Fora da mídia, talvez lembrada por poucos. E no lugar dela, uma outra descartável, que provavelmente não contribuirá muito à formação dos adoloscentes, à sua cultura musical e nem facilitará a descoberta de grandes talentos. Pelo contrário, terá tomado tempo e um espaço limitado de absorção que poderia ter sido usado para outra coisa.
Aí você me questiona: mas a mídia precisa de algo novo e fresco. Eu respondo: então a mídia que procure por qualidade! Invista nos talentos, incentive a formação musical - de quem ouve e de quem toca. Não dê espaço para o medíocre. Valorize os pontos fora da curva. Eles estão por aí, tocando em bares e divulgando suas músicas em alguma página do MySpace, basta encontrá-los. Se você acha que tem algo especial para mostrar aos jovens, talvez o melhor momento das últimas décadas seja agora!
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