A Sala de Controle (ou Técnica, como é mais conhecida) está para o produtor musical assim como a Sala de Cirurgia está para o cirurgião.
A responsabilidade é grande, o tempo é precioso. Os instrumentos precisam estar prontos para serem usados, sempre à mão. A equipe de trabalho, entrosamento e profissionalismo são essenciais. Foco e concentração. O resultado final precisa ser um sucesso, sem cicatrizes grosseiras, previamente planejado e executado de acordo.
Talvez a nossa vantagem seja que não há uma vida em jogo. Mas nem por isso deixamos de tratar a música como um organismo pulsante, com vontade própria, problemas de saúde e limitações.
Quais os equipamentos que toda e qualquer Sala de Controle decente precisa ter? Vou descrever alguns dos mais importantes. Os conceitos e funções são os mesmos, há muito anos. O que mudou foi a maneira de se trabalhar, assim como novas técnicas de diagnóstico e tratamento de pacientes são descobertas a todo instante. Mas boa parte do funcionamento do corpo humano, seus órgãos, funções e indicadores dos exames de sangue são bem conhecidos e não se alteram com a tecnologia.
Gravador Multi-pista: responsável pelo registro de todos os instrumentos e vozes. Quando cada elemento da música é registrado em sua trilha (ou pista) independente, as possibilidades de controle sobre o processo de gravação e mixagem é muito maior. Cada trilha pode ser escutada isoladamente, editada e modificada sem interferir nas outras, misturada com as demais na proporção que desejarmos. Com raras escessões, a gravação multi-pista é a forma mais comum e eficiente de se gravar. Outra grande vantagem está na viabilidade de se gravar cada parte em um diferente momento, os músicos não precisam necessariamente tocar juntos. Por exemplo, uma sessão de gravação pode registrar a bateria (cada peça ou tambor em sua própria trilha) e em outro dia, serão gravados baixo e chocalho, em duas novas pistas. Equipamento: hoje em dia, um software de gravação faz o papel do multi-pista. Funcionando em um computador, o software "simula" um antigo gravador de rolo de fita, oferecendo virtualmente infinitas pistas para gravação. O áudio é registrado em um formato digital e a quantidade de pistas gravadas simultaneamente não é mais uma limitação do gravador (ou mídia), mas sim da disponibilidade de ENTRADAS (ou canais), músicos e espaço no estúdio.
Console de Gravação: ou mesa de gravação, tem a função de receber os sinais provenientes dos instrumentos (microfones, guitarras, sintetizadores), prepará-los para gravação e enviá-los às pistas corretas do gravador multipista. O console oferece controle sobre cada sinal recebido do estúdio, permitindo que cada pista utilizada do gravador multi-pista registre o áudio com qualidade, clareza, sem distorções. Eeventualmente, algum processamento é aplicado antes da gravação, como por exemplo, filtro de frequências graves provenientes do manuseio de microfones. Equipamento: novamente, com o advento do computador e a possibilidade de se rodar várias funções ao mesmo tempo, o "console de gravação" não precisa existir fisicamente na Técnica. Ele faz parte do software de gravação multi-pista ou sofware da interface de áudio, que por sua vez, funciona como as entradas da mesa de gravação, onde são conectados os sinais vindos do estúdio. Com essa integração, muitas vezes o console de gravação passa despercebido pelo engenheiro de gravação. Mas é importante saber que ele existe, pode e deve ser utilizado como um console tradicional, para se ajustar os sinais e fazer o correto endereçamento de pistas no gravador.
Console de Mixagem: uma vez que todas as trilhas estejam gravadas, elas podem agora ser editadas e preparadas para a mixagem. A edição envolve retirada de ruídos, escolha dos melhores trechos e "colagem" final de uma linha de voz ou instrumento que será utilizada na música final. Quando todas pistas estão prontas para a mixagem, o gravador multi-pista faz o "playback" e os sinais são enviados para a mesa de mixagem. Nesta etapa, o engenheiro de mixagem controla diferentes aspectos de cada uma das trilhas, implementando o arranjo, as proporções de volume de cada instrumento, sua posição no panorama, efeitos, processamentos e demais cacaterísticas que compõe uma mixagem única e que provavelmente já foram decididas antes da mixagem propriamente dita. O resultado final será uma mistura (mixagem) de todas as pistas, de uma maneira que o áudio final seja claro, interessante, comunique a mensagem musical e realce cada instrumento e voz na intensidade e no momento certo. Equipamento: embora muitos engenheiros ainda prefiram utilizar consoles externos, por estarem acostumados a trabalhar com as mãos, com botões e faders, a mixagem também pode ser feita dentro do computador ( ou "in the box"). Nesse caso, um outro software (ou outro módulo do software de gravação) simula o playback e o envio dos sinais para mixagem, e o usuário pode controlar cada pista com as mesmas funcionalidades de um console real. (Alguns consoles são divididos em duas partes, uma para gravação e outra para mixagem, evitando mudanças de cabos, ou até mesmo permitindo que dois engenheiros possam trabalhar ao mesmo tempo).
Gravador Estéreo: o resultado da mixagem precisa ser armazenado, certo? É dele que serão criadas as mídias-master para a cópia de CDs, LPs ou qualquer outro suporte de música. O console de mixagem possue duas saídas principais (esquerda e direita) que constituem o áudio em estéreo, que eventualmente será reproduzido por nossas caixas de som. Esta saída (ou canal) principal da mixagem chama-se BUS MASTER, barramento master ou ainda L+R, e deve ser conectada a um gravador estéreo. Tradicionalmente, este processo de gravação ocorria simultaneamente com a mixagem, afinal o processo de mixar é dinâmico em si, o engenheiro de mixagem está modificando os controles durante toda a música. Enquanto o multi-pista fazia o playback, a mixagem ocorria e era registrada imediatamente no gravador estéreo. Hoje em dia, a mixagem pode ser previamente programada (ou automatizada), principalmente quando é realizada pelo computador. Dessa maneira, não há necessidade de se realizar os 3 procedimentos ao mesmo tempo. Equipamento: adivinhe! Mais uma vez, o software da Técnica pode ralizar esta função, registrando o áudio estéreo em um formato digital no disco rígido, que por sua vez pode ser transferido para um CD-ROM ou CD-Audio. Antigamente, o mix era gravado em um rolo de fita de dois canais ou numa fita DAT. Vale lembrar que o mix L+R precisa ser escutado (ou monitorado) durante a mixagem, portanto uma cópia da saída L+R do console de mixagem é enviada para os monitores da Sala de Controle.
Módulos de Efeitos: frequentemente, alguns efeitos devem ser aplicados nas pistas, principalmente durante a mixagem. Os mais comuns são: reverberação, compressão, equalização e delays. Para tanto, o console de mixagem (real ou virtual) possui canais auxiliares (ou mandadas de efeitos) que enviam o áudio de uma ou mais pistas para um módulo de efeitos. Este, por sua vez, retorna o áudio processado para a mesa de mixagem, onde ele é mixado com as outras pistas. Equipamento: obviamente, existem módulos virtuais para todos os tipos de efeitos imagináveis. No software de mixagem, eles são conhecidos como PLUGINS DE EFEITOS. Ainda é comum que módulos reais e externos sejam utilizados, uma vez que ainda não seriam fielmente substituídos por seus plugins clones. Neste caso, as SAÍDAS auxiliares da interface de áudio funcionam como mandadas de efeitos. O retorno volta ao computador pelas entradas da interface (que agora não estão sendo utilizadas para gravação multi-pista), a gravação estéreo ocorre internamente e as saídas principais (L+R) são monitoradas dentro da Sala.
Módulos de Instrumentos: uma das grandes ferramentas na produção musical é o uso de sinais MIDI. Tratam-se de sinais que não contém áudio, mas sim comandos que são interpretados por instrumentos virtuais que geram o áudio que será registrado. Os controladores MIDI mais comuns possuem a forma de um teclado tradicional, como um órgão ou piano. Permitem que qualquer tipo de som seja gerado, simulando um instrumento real ou simplesmente criando algum timbre sintetizado e criativo. Durante a gravação multi-pista, os sons gerados pelos módulos de instrumentos são gravados no multi-pista como qualquer outro sinal do estúdio. Os comandos MIDI podem acontecer em tempo real (instrumentista tocando) ou então podem ser previamente armazenados e editados em um SEQUENCIADOR. Equipamento: tanto os módulos de timbres quanto os sequenciadores foram praticamente substituídos pelos seus equivalentes em software. A maioria dos pacotes de produção musical permitem a gravação e edição de áudio e MIDI so mesmo tempo, além de oferecerem alguns instrumentos virtuais, na forma de PLUGINS de INSTRUMENTOS. Outros pacotes especializados desempenham somente o papel de instrumentos, muitas vezes rodando em outro programa à parte, simultaneamente com o programa de gravação / mixagem.
Repare como o computador é capaz de substituir quase todos os equipamentos tradicionais de uma Sala de Controle, viabilizando bons resultados em um espaço muito menor e com um orçamento bastante reduzido. No caso extremo, todas as etapas da produção e os sons dos instrumentos podem ocorrer via software, desde que o usuário possua os pacotes necessários, uma interface de áudio, um microfone para voz e monitores (incluindo headphones). Se o resultado será convincente, isso é uma outra história.... E lembre-se de que a acústica nunca será substituída por um software - os sons emitidos e reproduzidos sempre dependerão de microfones, monitores e sala.
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