É natural imaginarmos que com mais de 30ms de atraso, todos os instrumentos e vozes soarão como ecos. Será?
Algo particularmente diferente acontece com as vozes. Com delays em torno de 50ms, conseguimos o famoso efeito de "dobra", tão característico na voz de John Lennon e frequentemente utilizado atualmente, em diversos estilos.
As melhores dobras de vocais ocorrem quando, de fato, vários takes diferentes são gravados e sobrepostos. As variações naturais entre uma performance e outra do cantor contribuem para um efeito mais rico e realista. Se analisarmos os takes, veremos que as gravações possuem uma pequena diferença de tempo entre si. Afinal, dificilmente o cantor consegue repetir uma frase com a mesma duração, começando no mesmo instante.
Essas diferenças são da ordem de 50ms, que seria a "precisão natural" do nosso metrônomo biológico. O mesmo ocorre com bateristas, cada batida na caixa está ligeiramente fora do compasso, com atrasos da mesma ordem de grandeza.
Como a voz é tipicamente um instrumento "legato", ou seja, sem muitas interrupções, onde cada sílaba ou nota musical que termina é imediatamente seguida por outra, o eco que esperaríamos de um atraso de 50ms se "funde" com o som original, criando o efeito de dobra. Para melhores resultados, o delay deve estar posicionado exatamente sobre o áudio original, ou seja, no mesmo panorama horizontal. Outros instrumentos mais transientes, com ataques mais pronunciados, não gerariam este efeito lendário.
Como de praxe, 5 segundos sem efeito, 5 segundos com delay:
Novamente, como estamos atrasando toda a música, e não apenas os vocais, os demais elementos soam confusos e os ecos são claramente identificados. Quando criar dobras pelo uso de delays, lembre-se que apesar de interessante, o efeito descaracteriza o timbre, devendo ser usado com moderação. Talvez apenas em algumas sessões da música.
No próximo e último artigo da série, exagerados 100ms de delay!
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