Entrou um projeto e sobrou uma grana para investir no estúdio. Sua lista de desejos está grande e toda semana lançam um equipamento novo, promissor e tentador. O que comprar??? O mundo seria mais fácil se não existissem tantes opções e opiniões diferentes...
Se você está esperando uma receita infalível, que eu indique alguma marca ou modelo de monitores e interface, acho que vou desapontá-lo. Mas tenho algumas dicas que podem aliviar bastante a dura tarefa de fazer um upgrade no Home Studio.
Sempre procuro pensar em EQUILÍBRIO. Neste caso, não estou falando de filosofia chinesa ou meditação. Equilíbrio entre todos os elos do sistema. Que sistema? Sala + Equipamentos + Você.
(Esta lista não está necessariamente em ordem de prioridade e não contém todos os pontos importantes, é apenas um guia.)
- CONHECIMENTO. O fator mais importante e decisivo, sempre foi e sempre será o conhecimento. Know-how, prática, experiência, informação. Não adianta termos o software mais atual, ou o equalizador mais caro, se não sabemos como usá-lo. Quando, porque e onde ele faz a diferença. O melhor investimento que pode fazer no seu sistema é em você. Cursos, livros, trabalhos. Fuja das receitas do tipo "como gravar guitarras" ou "comprimindo a bateria". Se existisse uma receita, todos aprenderiam e todos seriam excelentes e iguais no ofício. Quando aprendemos os conceitos e realmente entendemos o que está acontecendo dentro de um plugin e porque o som está soando daquele jeito, rapidamente podemos identificar as problemas, comparar e fazer decisões.
- ACÚSTICA. Embora algumas pessoas estejam querendo mudar esta verdade, a luta é em vão. Som é acústica, e por mais que utilizemos computadores e instrumentos virtuais, em algum momento o som acústico se manifestará. No mínimo, nas caixas do ouvinte. Gravar, mixar e escutar em fones-de-ouvido nunca foi produtivo no estúdio. É útil em algumas situações, mas passamos nossa vida escutando pela ACÚSTICA, e não por fones. Somente através do som no ambiente podemos julgar com segurança graves e agudos, profundidade, panorama, reverb, embolamento, clareza. Sua sala deve ser encarada como um equipamento que está sempre ligado e deve alterar o som o mínimo possível. Invista no tratamento acústico sem hesitar.
- ELÉTRICA / CABOS. Igualmente aos outros quesitos, este ponto deve estar equilibrado com o restante do sistema. Se os microfones são excelentes e os cabos introduzem ruídos, então os microfones não precisariam ser excelentes, certo? O elo mais fraco determina o gargalo. Não faz sentido ter algo acima da qualidade do elo mais fraco. Assim como também é importante que o elo mais fraco não seja tão fraco assim, para não comprometer o restante do sistema. Se a sala já está tratada e os equipamentos possuem um nível razoável de qualidade, então a energia elétrica e os cabos precisam de um nível razoável de qualidade. Filtros de linha, no-breaks, instalações mal feitas e falta de aterramento atrapalham demais o som do estúdio. Cabos que enferrujam, soltam peças e desfiam são sinônimo de problema. Não precisa comprar um condicionador de energia para audiófilos, nem cabos de ouro a R$300 o metro, mas mantenha o investimento compatível com o restante. Se os seus equipamentos não são nem os mais caros, e nem os mais baratos, use o mesmo padrão para os cabos.
- MONITORES. As caixas-acústicas são normalmente mais valorizadas do que deveriam. Se a sala não possui tratamento acústico, então nem pense em investir muito dinheiro nos monitores. Mais uma vez, o padrão dos monitores deve ser da ordem de qualidade dos outros equipamentos. Conheço muitos casos de produtores que compraram monitores novos e não tiveram nenhum ganho. Claro! A sala continuou sendo o elo mais fraco. Via de regra, não comece comprando equipamentos caros, mas suspeite fortemente dos muito baratos.
- MICROFONES / PRÉS. Essa dobradinha é famosa! Uma vez que você cruzou a barreira dos microfones PÉSSIMOS, os ganhos só começam a ficar claros quando sala, cabos e pré-amplificador são de razoáveis para bons. Se eu pudesse encontrar e comprar hoje um Neumann U47, talvez fizesse como "colecionador", mas não faria muito sentido um investimento desta ordem para ter ganhos muito pequenos no meu Home Studio. Talvez algumas gravações ficassem um pouco mais interessantes (assim como com outros microfones bem mais baratos), mas certamente eu não estaria aproveitando todo o potencial deste microfone. Minha sala é bem tratada, e meus monitores são confiáveis, mas simplesmente não tenho pré-amplificadores compatíveis com o U47. Aliás, talvez seja por isso que ele normalmente é vendido com seu próprio pré. Mesas e interfaces baratas inevitavelmente possuem prés de baixa qualidade. Um pré desse nível costuma ser um dos elos mais fracos. Um pré externo de boa qualidade é um ótimo investimento. Pelo menos faça um teste.
- CONVERSORES. Para entrar e sair do computador, o áudio precisa ser convertido. De analógico para digital e vice-versa. Hoje em dia, conversores baratos são razoavelmente bons e este elo só costuma comprometer o resultado quando os demais são muito bons: prés, microfones, monitores, sala, cabos. Conversores topo de linha são caríssimos por alguma razão! A maioria das interfaces de áudio já traz prés e conversores embutidos. Conforme o nível do estúdio cresce, começam a ser usados prés separados e por fim, conversores dedicados. Escutar a diferença que um bom conversor faz, num estúdio bem projetado e equilibrado, é quase assustador!
- EQUIPAMENTOS / PROCESSADORES / PLUGINS. Chegamos no ponto mais variável, pessoal e polêmico. Eu resumiria da seguinte maneira. É muito provável que os equipmentos que você possui (compressores, equalizadores, reverbs, delays), externos ou em forma de software (plugin), são mais do que suficientes para realizar um excelente trabalho. Quando todos os pontos acima estiverem equilibrados e você realmente perceber que já extraiu tudo o que podia dos seus plugins, talvez seja hora de investir e baixar novos softwares, de comprar aquele compressor famoso.
Talvez você acredite que um novo plugin irá resolver seus problemas. E talvez seja verdade, cada caso é um caso. Para fazer cursos e tratar a sala, precisamos de tempo e dinheiro. Mas lembre-se que nada vem de graça!
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