Escutando no Volume Adequado

Dennis Zasnicoff - Produtor Musical - DecibelímetroUma das coisas mais difíceis de se regular, esteja você escutando, gravando, mixando ou masterizando, é o volume.

Como saber se não estamos ouvindo alto demais, correndo o risco de danificar a audição após algumas horas? Qual o volume correto para se fazer um bom julgamento de graves e agudos? Como medir o volume? Existe um padrão para produtores e ouvintes?

Que a exposição prolongada a sons altos é cumulativa e prejudicial, já sabemos. Também já vimos neste blog que a sensação de volume é relativa e contextual - depende do ruído ambiente, do tempo de exposição e até do estado mental.

Mas para nossos ouvidos, só um existe um som, absoluto. Quando muito alto, gera fadiga auditiva e dispersa nossa atenção e interesse ao longo do tempo. Se for muito baixo, pode soar desequilibrado, com falta de graves e agudos. Portanto é essencial que os profissionais da produção musical escutem e façam julgamentos em um volume adequado, que não só permita a correta análise de equilíbrio, incômodo, interesse, inteligibilidade e dinâmica, como também reflita o que o ouvinte médio escutará e julgará.

REGRA GERAL

Se você precisa falar alto para te entenderem ou prestar atenção para escutar o que outro diz, então o volume já está alto demais para ser considerado seguro.

EM DETALHES

A indústria cinematográfica, há muitos anos, estabeleceu um padrão de volume. Os estúdios de mixagem de trilhas, diálogos e efeitos trabalham com a referência 83dBC. Ou seja, em média, o volume do áudio durante a produção está em torno de 83dBC, que pode ser medido por um simples decibelímetro. Este nível, por consequência, é calibrado nas salas de cinema para que os espectadores escutem no mesmo volume. Assim, profissionais e consumidores estão sempre ouvindo a mesma coisa, com a mesma proporção de graves e agudos, suficiente margem dinâmica para sons abruptos e altos (como os de efeitos especiais) e nível adequado para que as passagens mais suaves possam ser escutadas com boa inteligibilidade, considerando-se o ruído ambiente. Ao usarem esta referência, os produtores do filme conseguem prever com exatidão a experiência do usuário, garantindo que não haja desconforto acústico e muito menos danos a uma exposição prolongada.

Na Indústria Musical, não existe um padrão. Tentativas não foram bem sucedidas, por diversos motivos, entre eles a impossibilidade de se padronizar o ambiente de audição do consumidor (que varia consideravelmente) e a famosa guerra dos volumes. Ainda assim, os ouvintes deveriam se preocupar com assunto, pelas mesmas razões apresentadas: conforto, saúde, interesse, equilíbrio etc. Do outro lado, produtores e masterizadores poderiam e deveriam usar uma referência de volume, pelo menos para que os ouvintes que têm consciência sobre o problema possam ter a melhor experiência possível. No mais, engenheiros que trabalham horas e horas escutando música todos os dias, precisam cuidar da sua ferramenta mais importante - os ouvidos.

Por que não usar a mesma referência de 83dBC, que já se mostrou segura e eficiente ao longo de tantos anos? Esta é justamente a proposta do sistema K-System, patenteado por Bob Katz, numa tentativa de padronizar o volume das produções musicais, ou pelo menos uniformizar os níveis dentro de estilos e situações - pop, erudito, rádio, home theater.

A idéia é que durante a mesterização, o engenheiro calibre seu sistema para que, em média, o volume esteja em torno dos mesmos 83dBC (em cada caixa). Essa calibragem pode ser facilmente conseguida com o uso de um medidor de nível no Software, por exemplo, e um decibelímetro externo (ou acústico). Utilizando um sinal de teste que represente o nível de referência, o engenheiro ajusta o volume das caixas até que o decibelímetro indique 83dBC. Nesse ponto, ele faz uma marcação no controle de volume e não o modifica mais. Sempre que o medidor do Software indicar o nível médio (que será aquele que o engenheiro manterá a música na maior parte do tempo), terá a certeza de que o volume na sala está próximo de 83dBC.

Se todas as produções seguissem esse procedimento, os ouvintes não precisariam ficar mudando de volume de um disco para outro, ou até mesmo de uma música para outra. Eles saberiam qual a posição adequada do controle de volume do seu equipamento e sempre escutariam neste ponto - tendo a experiência que foi intencionada pelo produtor. Mesmo que isso fosse verdade, ainda existiria a dificuldade de se encontrar este ponto de referência. Aí não há outra solução senão usar um decibelímetro.

Toque um CD e regule o volume até que o decibelímetro, na posição de audição, indique um valor em torno de 85dBC (decibelímetro regulado para escala "C", tempo de resposta "LENTO", medindo as duas caixas). Se não possuir um, consiga um medidor emprestado para ter uma idéia dos volumes dos seus CDs e da regulagem do seu equipamento. Faça marcações no controle de volume e, com o tempo, você irá se acostumar com o volume médio adequado, podendo dispensar o decibelímetro. Compare com o volume que você está acostumado. Ele é mais alto ou mais baixo? Experimente ouvir várias músicas do mesmo CD neste volume. Ele soa mais interessante? Deixa de ser cansativo?

(mais detalhes sobre o K-System, como calibrar e utilizar medidores da escala "K" em: http://www.digido.com/bob-katz/level-practices-part-2-includes-the-k-system.html)

Boas audições!

 

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